Lado A. Lado B. Isso é a vida?!
Lado
A. Lado B. Isso é a vida?!
Por
Alessandra Leles Rocha
É; eu sei que Caetano
Veloso escreveu “cada um sabe a dor e a
delícia de ser o que é” 2; mas,
isso não significa que não seja possível, ainda que por um minuto, projetar-se
na perspectiva do outro e tecer a experimentação imaginária para as próprias
análises e reflexões.
No entanto, o que
se vê em cada esquina, em cada página, em cada lugar real ou virtual, é o
distanciamento efetivo desse valor humano denominado empatia 1. Hoje não foi diferente! E nessa
contramão, vou acentuando uma percepção de que o óbvio nem sempre é tão óbvio
assim. Vamos lá, então, tentar digerir tudo isso.
Apesar da
efemeridade ou da liquefação da vida, como manifestam alguns pensadores, em uma
breve observação desse incômodo “calçar
as sandálias do outro” verifico um apego descomunal ao materialismo que
reveste o cotidiano de milhares de pessoas; sobretudo, quando as hierarquias
sociais estão particularmente evidenciadas, quase que em um movimento de “vale quanto pesa”.
Lamento que muitos
resistam a enxergar a vida exatamente como ela é, dispondo também de um lado
nada bonito, nada prazeroso, nada encantador,... Nada fácil. Mas, invisibilizar
tais aspectos é inócuo. De um jeito ou de outro esbarramos aqui e ali com as
imperfeições, as distorções, os abismos, as fronteiras... para verificar do
lado de fora tudo aquilo que, talvez, não queiramos enxergar dentro da própria
alma.
Um bom exemplo disso
é a miséria. Quantos só enxergam a miséria além-mar, como responsabilidade de
outros. Dão de ombros ou fazem cara de desentendido,
quando o assunto vem à baila, buscando estilhaçar a memória a respeito e ser
convocado a trabalhar em favor de mudanças.
E quão difícil para
esses é romper a tradição da “casa grande e senzala”, que o
colonialismo ensinou. Apesar do fato de que, enquanto subiam no tijolo por
aqui, para sentirem-se superiores aos seus semelhantes; lá fora, eram as Metrópoles
que nos reprovavam a insignificância e lançavam suas atitudes tiranas e
inconsequentes para mascarar a exploração desenfreada que iria lhes encher os
bolsos de riqueza e os palácios de poder.
Muito embora, o tempo
tenha passado velhos hábitos parecem jamais se extinguir para a humanidade. Daí
a miséria persistir na sua sina, graças às práxis que se inovam e incorporam
outros meios. Haja vista a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse ano.
Em 2018, “embora um
milhão de pessoas tenham deixado a linha de pobreza – rendimento inferior a US$
5,5, medida adotada pelo Banco Mundial para identificar a pobreza em países em
desenvolvimento como Brasil – um quarto da população brasileira, ou 52,5 milhões
de pessoas, ainda vivia com menos de R$420 per capita por mês. O índice caiu de
26,5%, em 2017, para 25,3% em 2018, porém, o percentual está longe do alcançado
em 2014, o melhor ano da série, que registrou 22,8%” 3.
Não precisa,
portanto, ser nenhum gênio da matemática ou expert
em finanças para entender que, enquanto poucos podem se privar de alguns
pequenos “luxos cotidianos”, sem que isso lhes afete a dignidade e a sobrevivência,
a grande maioria da população passa fome e morre desassistida na privação da
sua própria cidadania.
E quando se lança o
olhar sobre os mesmos dados; mas, com ênfase na perspectiva das diferenças
raciais, a desigualdade se torna ainda mais chocante. Talvez, seja nesse
instante que o espírito essencialmente humanitário se esvai como fumaça quando é
posto à prova um mísero sinal de empatia. “Se
não tem pão que comam brioches”, não é mesmo?! O escárnio grosseiro da
afirmação, felizmente, só faz saltar aos olhos o menosprezo pelos miseráveis e
menos afortunados.
Entretanto, quando
se observa com mais atenção, vê-se que não escondem a necessidade de tê-los por
perto. Ainda que parcos os seus impostos, eles fazem a diferença na balança. Sua
força de trabalho. Sua subserviência política. Enfim... Não existissem esses
pobres diabos, o que seria do topo da pirâmide?!
Brilhantes entre
espumas de detergente e louças sujas?! Roupas separadas e dispostas no tanque para
lavar?! Assoalho limpo no vai e vem das vassouras?! O calor, esvaindo das
panelas e fornos, expresso no suor do rosto?!... Não, não haveria viagens
nacionais e, nem tampouco, internacionais. Não haveria cartões de crédito sem
limite. Não haveria jantares nababescos. Não haveria glamour. Não haveria lado
A para a vida.
A miséria subsaariana
é só um lado desse prisma. Um lado distante. Mas, a miséria desfila por todo o
mundo, inclusive aqui. Com ela, a ausência de “educação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência
social, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados” 4, também, se exibe entre nós; o lado B
da vida.
Até quando esse “lado”
irá resistir às pressões de tanta opressão não se sabe; mas, o caminho para
sucumbir parece inevitável. Então, a busca pela igualdade e pela equidade de
direitos e oportunidades não pode ficar à margem das prioridades humanas. Esquecida
e adormecida em meio aos devaneios de uma ensandecida idealização.
E o ponto de
partida para esse movimento de despertar e transformar é abstrair os rótulos,
os estereótipos, as classificações e olhar para as pessoas, apenas, como seres
humanos. Isso é empatia! Ser humano já é uma tarefa e tanto que não precisa de
mais obstáculos para se desenvolver.
Nenhum ser humano,
por exemplo, é isento da dor, do sofrimento, da angústia, da carência; do mais
rico ao mais pobre algum dia ele (a) irá experienciar essa prática. Apesar das
diferenças e particularidades o processo não perde o seu valor, nem a sua
dimensão. Afinal de contas, um ser que pode ser muito mais do que a casca de
uma miséria narcísica e improdutiva, precisa descobrir e entender o que é ser
inteiro, o que é ser feliz, antes de sair falando bobagens estúpidas e
desnecessárias por aí.
1 Com origem no termo em grego empatheia, que significava
"paixão", a empatia pressupõe uma comunicação afetiva com outra
pessoa e é um dos fundamentos da identificação e compreensão psicológica de
outros indivíduos. (https://www.significados.com.br/empatia/)
4 Art. 6º, da
Constituição Federal de 1988.