Crônica de Quinta!!!
Crédulos.
Temerariamente crédulos.
Por
Alessandra Leles Rocha
Já ouvi de jovens adolescentes,
alunos de ensino médio e fundamental, a ideia de que não é necessário aprender
porque diante de uma dúvida qualquer basta recorrer à internet. Apesar do
espanto terrível, tentei reconsiderar a opinião pelo fato da inexperiência, da superficialidade,
do imediatismo pertinente a pouca idade. O pior é perceber que considerações
assim estão se disseminando não apenas entre os jovens. Um movimento de “idiotia
voluntária” está se estabelecendo entre nós; o que fica bastante claro, quando
vemos, por exemplo, a propagação em massa das Fake News e as consequências desastrosas que elas têm desempenhado
na sociedade.
É certo que o ser humano dispõe do
livre arbítrio para tomar decisões. Ser ou não ser “massa de manobra”, abstendo-se
de pensar com a própria cabeça, é escolha de cada um. Mas, só não se pode
esquecer de que comportamentos e escolhas impõem sempre o descortinar de outros
caminhos, de novos desdobramentos, os quais podem recair tanto individual
quanto coletivamente. Veja o exemplo da epidemia de Sarampo no país.
Tudo isso é no mínimo curioso,
visto que o ser humano foi a única criatura dotada de inteligência, de
capacidade cognitiva apurada, e de repente, resolveu fazer mau uso desse
privilégio de autonomia e protagonismo para entregar-se a alienação de um “feito
manada”. Como se o poder reflexivo e decisório lhes pesasse de maneira
descomunal os ombros e provocasse uma desestabilização insuportável na sua zona
de conforto. Então, muitos optaram pela preguiça intelectual; como, se ao invés
de descalçar um sapato apertado, apenas colocassem um curativo para cobrir o
ferimento ali instalado. Puro efeito placebo!
Cada dia mais a humanidade
transita, então, na superficialidade limitada do conhecimento e passa a produzir
decisões que não são verdadeiramente suas; mas, oriundas do pensamento alheio. Isso
significa que está havendo uma homogeneização da identidade, em diversos níveis,
com o aval da própria sociedade. A cômoda sensação de não ter que caminhar com
as próprias pernas, ou pensar, ou se posicionar diante da vida, somente ser
levado pelas correntes de fluxo parece tentador demais e pressiona para essa
escolha.
Então, quando os resultados dessa
abstenção não lhes satisfazem, apelam para a condição de vítimas das circunstâncias,
como se não tivessem culpa ou responsabilidade pelo o que aconteceu. De modo
que, mais uma vez, se colocam na passividade de esperar que alguém resolva a
questão por elas.
Mas, ao contrário de romper com
esse ciclo improdutivo e desgastante, o que se percebe é uma cronificação desse
processo. Por mais alertas e discussões que sejam estabelecidos para debelar
esse discurso alienante, as condições sociais e tecnológicas são um ponto de resistência
importante. A velocidade de informação é muito grande. Não há um mecanismo
filtrador eficaz, o bastante, para conter a disseminação de conhecimento
incorreto ou manipulado. As próprias pessoas abriram mão de estabelecer critérios
e barreiras naturais de análise daquilo que lhes chega, então... a situação se
assemelha a enxugar gelo.
Dizia o dramaturgo e poeta alemão
Bertolt Brecht, “de todas as coisas
seguras, a mais segura é a dúvida” e complementava “não aceites o habitual como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade
desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve permanecer impossível de
mudar”. Quando se olha para esse movimento atual de “não pensar”, que está
sendo instituído e propagado percebe-se que os indivíduos estão tornando-se isentos
da dúvida autoral, advinda da sua própria consciência. Estão crédulos. Temerariamente
crédulos. O que faz lembrar o Mito da
Caverna, presente na obra A
República, de Platão; na qual se estabelece uma explicação sobre o conceito
do senso comum em oposição ao senso crítico.
Portanto, já passou da hora de
entender que a caverna pode até parecer confortável e segura; mas, se quiser de
fato pensar duvidar evoluir é preciso sair, deparar-se com a luz, enxergar a
realidade sem artifícios.