Mea-culpa

Mea-culpa

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Essa é a expressão que nos confronta diretamente com o senso de responsabilidade a ser exercitado nas decisões e nas escolhas. Afinal, tudo tem consequência e eventuais arrependimentos podem ser totalmente inócuos diante dos resultados. O tempo não retrocede para poupar quem errou.

No entanto, essa não é uma questão que afeta o ser humano apenas do ponto de vista individual. Não, o aspecto coletivo, social, talvez, mereça uma atenção ainda mais afirmativa.

É preciso olhar para a contemporaneidade como um campo fértil para a geração da insatisfação e da frustração popular que acaba levando milhares de pessoas a se render as armadilhas de um extremismo radical, que se veste com diferentes figurinos.

A grande verdade é que esse roteiro já é um velho conhecido das páginas da história. Há quem se pergunte, então, porque não aprendemos a lição?

Muito simples. Porque as gerações se sucedem, os problemas se avolumam, a insatisfação toma conta, o desapontamento fere a credulidade humana, e aí, quando menos se espera, uma avalanche de promessas vazias, mas certeiras no seu acalento, reavivam um sentimento de esperança. Afinal, o ser humano guarda em si um traço de ingenuidade que teima em o trair.

Porém, isso não exime nenhum ser humano com os pés fincados na Terra de reconhecer a existência de uma relação simbiótica entre a ética, o legal e a mea-culpa. Podemos dizer que a ética funciona como a bússola, na medida em que é a partir da moralidade interna e do entendimento do que é justo, correto e bom, que se pode ir além do que está escrito nos códigos de conduta.

A lei é a regra. Portanto, ela é a positivação da ética em normas jurídicas, servindo para garantir que desvios éticos graves tenham consequências estruturadas e punições previsíveis.

E a mea-culpa nada mais é do que a consciência. Ela é o elo subjetivo. É o ato de consideração do próprio erro, para permitir ao indivíduo assumir a responsabilidade e aceitar que houve uma violação tanto da bússola ética quanto da regra legal.

Assim, quando esses três elementos cooperam, o sistema social funciona; pois, a ética inspira a lei, a lei pune o desvio, e a mea-culpa gera o arrependimento necessário para o aprendizado e a evolução das próprias leis.

No entanto, quando um deles falha, como por exemplo, quando há leis, figuras públicas ou representantes político-partidários sem ética, ou compaixão sem o reconhecimento do erro, há um colapso.

Afinal, a ética, a lei e a mea-culpa formam o tripé que sustenta a responsabilidade humana e social. Quando um desses elementos não cumpre o seu papel, é inevitável que os outros entrem em desequilíbrio.

Daí a importância deles nos processos de decisão, de escolha, seja em que situação for. Na medida em que uma desatenção, um equívoco, uma banalização, um descompromisso, ... pode resultar em consequências e desdobramentos inimagináveis.

Relembrando as palavras de Hannah Arendt, filósofa política e teórica alemã de origem judaica, “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. Afinal, estamos diante da manipulação do espaço público, da crise da moralidade e do avanço de regimes autoritários ou totalitários.

O que significa que o ser humano ao se deixar guiar pelo descompasso entre a razão e a sensibilidade, possibilita ao mundo assistir o que de mais terrível e abominável ele pode produzir: regimes totalitários, guerras e genocídios.

Viu só?! A ética realmente não funciona como um manual guardado na estante. Ela só pode se materializar a partir das microdecisões do cotidiano. Como?

Veja, quando relativizamos um pequeno deslize hoje, seja uma mentira, um pequeno favorecimento ou o ato de ignorar as leis ou as regras, abrimos um precedente perigoso; pois, o cérebro humano se habitua rapidamente a quebrar limites, tornando o próximo descompromisso um pouco mais fácil e consideravelmente maior.

Por isso, grandes escândalos corporativos ou políticos, falhas institucionais e crises humanitárias raramente ocorrem com um plano monumentalmente maligno.

Para evitar a dissonância cognitiva que é o desconforto de se perceber como uma pessoa aparentemente boa está fazendo algo errado, o indivíduo cria justificativas plausíveis do tipo "todo mundo faz", "não vai prejudicar ninguém", "é só dessa vez".

Dentro dessa dinâmica, então, o que antes era uma exceção absurda passa a ser o novo padrão de normalidade e culturas corporativas inteiras se corrompem. Lembre-se, nada acontece por um decreto unilateral, mas pela tolerância coletiva a pequenos deslizes diários.

Essa compreensão é de suma importância, porque na relação entre o campo político-partidário ou institucional e a população, por exemplo, isso se desenvolve de uma maneira desastrosa.

É o que a ciência entende por Normalização do Desvio, ou seja, a corrupção de uma cultura, seja ela empresarial, institucional ou política, não ocorre de forma abrupta, mas sim através da transação contínua e silenciosa dos padrões éticos.

Desse modo, ao aceitar esses pequenos deslizes, o impacto social é simplesmente devastador. Primeiro, pela erosão da confiança pública. A população passa a ver as instituições ou certas pessoas não como garantidoras da ordem, mas como estruturas autointeressadas, a atuar em causa própria. O que tende a levar ao cinismo social que passa a reafirmar a crença de que "todo o mundo faz", justificando individualmente os próprios pequenos desvios cotidianos.

Segundo, pela redefinição do aceitável, ou seja, o que antes era considerado um escândalo intolerável passa a ser visto apenas como o modo como o sistema funciona, e pela imunidade política, a qual permite que as confusões, as desordens, se repitam saturando a opinião pública, até gerar uma apatia coletiva onde nada mais choca ou mobiliza.

Por fim, pela espiral do silêncio e da cumplicidade. Sim, pois aqueles que tentam manter a rigorosa ética original são isolados, sabotados ou rotulados como ingênuos, crédulos. O que faz emergir uma tolerância institucionalizada que se traduz por uma omissão que deixa de ser covardia e passa a ser uma mera estratégia de sobrevivência dentro do sistema.

Portanto, esse cenário revela uma dinâmica que derrota o tecido social porque, ao contrário de uma crise aberta gerada por um acontecimento, a normalização do desvio funciona como uma anestesia. Quando a sociedade percebe o tamanho do estrago, a exceção já virou regra e o sistema já está profundamente prejudicado.

Daí a necessidade de que cada decisão ou escolha não aconteça à revelia da ética, da cidadania, da responsabilidade. Dentro de cada um dos espaços sociais que o ser humano ocupa deve existir essa atenção; pois, é isso o que impede que as instituições, as representações sociais e as relações humanas se desumanizem. Quando um desses pilares falha, abrimos espaço para a injustiça, o egoísmo e a impunidade.

O exercício da mea-culpa na contemporaneidade está, portanto, intimamente associado à contenção da erosão democrática, que vem ocorrendo de forma gradual por meio de desgastes institucionais e de lideranças eleitas que destroem os pilares da Democracia por dentro, começando pelo esfacelamento dos valores e princípios éticos.