A matemática da conveniência
A matemática
da conveniência
Por Alessandra
Leles Rocha
Para quem não acredita, a
matemática interfere sim nas escolhas cotidianas e pode, em muitos casos, não
apenas estabelecer falsas equivalências, como produzir argumentos enviesados e
disformes, os quais não refletem a veracidade dos fatos.
E por que falar a esse respeito? Bem,
como é comum em todo ano eleitoral, certos economistas, formuladores de
políticas e setores da sociedade civil destilam a sua paranoia quanto ao controle
rígido da dívida pública e da austeridade fiscal, como único caminho possível
para a estabilidade econômica que levaria o país ao crescimento sustentável no
longo prazo.
Assim, quase sempre, há uma
culpabilização do governo vigente; sobretudo, aqueles de viés mais progressista,
sobre essa questão. Impingindo a ele a pecha de gastador, perdulário,
esbanjador, imprevidente.
O que essas pessoas se esquecem é
de que, historicamente, nenhum governo brasileiro conseguiu zerar a dívida
porque o país convive com déficits fiscais clássicos e uma das taxas de juros
reais mais altas do mundo, gerando um efeito de bola de neve. Há anos o setor
público brasileiro gasta mais do que arrecada com impostos antes de pagar os
juros dessa dívida.
Desse modo, como o governo gasta
mais do que arrecada, ele emite títulos públicos para pegar dinheiro emprestado
no mercado. E para atrair compradores, o Banco Central mantém uma taxa de juros
elevada, cujo custo desses juros consome quase 9% de tudo o que o Brasil produz.
Então, para estabilizar esse
indicador sem sufocar o crescimento, o país precisaria obrigatoriamente de
reformas estruturais profundas, controle de gastos obrigatórios e um ambiente
que permitisse a queda estrutural dos juros. O que depende diretamente de uma disposição
de trabalho entre o Executivo e o Legislativo, deixando de lado eventuais vaidades
e as costumeiras diferenças político-ideológicas.
Assim, antes de emitir qualquer
opinião sobre a dívida atual brasileira, é importante resgatar na memória
alguns pontos importantes. O ano de 2022 encerrou com a Dívida Bruta do Governo
Geral (DBGG) em 73,5% do PIB (Produto Interno Bruto), além de deixar cerca de R$255,2
bilhões em despesas contratadas e não pagas, os chamados restos a pagar, para o
ano seguinte.
Por isso, houve a necessidade de
que fosse aprovada pelo Congresso Nacional a PEC da Transição, ou seja, a Emenda
Constitucional 126, no fim de 2022, para garantir o funcionamento da máquina
pública e a continuidade de programas sociais em 2023.
A PEC permitiu que R$ 145 bilhões
ficassem fora do teto de gastos, garantindo recursos para bancar a continuidade
de programas sociais e recompor orçamentos zerados de ministérios, tais como saúde
e educação. A medida também autorizou até R$ 23 bilhões em investimentos fora
do teto caso houvesse excesso de arrecadação.
Nesse sentido, foi aprovada a Lei
Complementar 200/2023, conhecida como Novo Arcabouço Fiscal, em substituição ao
antigo Teto de Gastos para controlar as contas públicas do governo federal.
Ela prevê que os gastos do
governo podem subir até 70% do aumento real da arrecadação do ano anterior. Há
uma faixa fixa de crescimento para as despesas, na qual o piso é de 0,6% e o
teto é de 2,5% de alta real, acima da inflação, ao ano. Caso o governo não atinja
a meta fiscal do ano, o limite de alta dos gastos cai de 70% para 50% do
crescimento da receita no ano seguinte.
Essa regra define metas para o
resultado primário, ou seja, a diferença entre receitas e despesas, sem contar
os juros da dívida. No entanto, cabe ao governo buscar zerar o déficit, 0% do
PIB, e avançar para resultados positivos nos anos seguintes. Lembrando que
existe uma margem de tolerância que trata do limite de variação aceita para
mais ou para menos em relação à meta traçada.
Além disso, certos investimentos estão
garantidos; pois, o texto estabelece um valor mínimo para o governo aplicar em
obras e investimentos públicos. E certas despesas importantes como o Fundeb, para
a educação básica, e o Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) ficam de
fora do limite geral de gastos.
Portanto, ao contrário do que muitos
imaginam, o governo em curso não está agindo como um doidivanas imprudente e
inconsequente. A dinâmica da dívida pública brasileira em 2026 prova que o
endividamento é um reflexo estrutural acumulado, moldado por decisões fiscais
pretéritas, pressões monetárias globais e uma crescente vulnerabilidade
climática.
O perfil da dívida recente foi
severamente impactado pela quitação e regularização de passivos judiciais
acumulados, tais como a PEC dos Precatórios, mostrando uma atitude acertada para
quitação dessas dívidas.
A economia global também afeta
diretamente o custo fiscal do Brasil, a partir da manutenção de juros altos nas
economias desenvolvidas e a valorização do dólar encarecendo insumos e
pressionando a inflação doméstica.
Do ponto de vista ambiental, as
mudanças climáticas deixaram de ser uma pauta puramente ecológica para se
tornarem um fator de risco fiscal crítico.
Quebras de produção no
agronegócio impactam o PIB setorial; pois, menos toneladas colhidas diminuem o
valor real gerado pelo setor. Assim, a quebra reduz a demanda por transporte,
armazenamento, insumos e máquinas impactando a cadeia produtiva.
Por fim, a menor disponibilidade
de produtos eleva os preços internos e gera inflação de alimentos; bem como, o
menor volume exportável reduz a entrada de dólares e afeta o saldo comercial do
país.
Sem contar que os períodos
severos de seca prejudicam o nível dos reservatórios hidrelétricos, obrigando o
acionamento de usinas térmicas mais caras, gerando inflação de custos, exigindo
políticas monetárias mais rígidas com juros altos que retroalimentam o custo da
dívida. Bem como, os eventos extremos exigem gastos federais imediatos e fora
do orçamento previsto para socorro a estados e municípios.
Mas, não bastasse tudo isso, há o
impacto das emendas parlamentares sobre a dívida pública brasileira. Embora
ocorra de forma indireta, ele é profundo, competindo como um dos principais
fatores de dificuldade orçamentária, pressão sobre o déficit fiscal e aumento
do custo de rolagem da própria dívida.
Nos últimos 11 anos, o volume de
emendas saltou de R$ 11,3 bilhões, em 2014, para R$ 47,1 bilhões, em 2025/2026,
representando um crescimento real de 315%.
O que significa que as emendas
parlamentares impactaram diretamente a dívida pública brasileira ao elevar os
gastos discricionários e tensionar as metas fiscais, ao mesmo tempo em que
demonstraram a fragilidade social devido ao clientelismo e à falta de
planejamento técnico que não prioriza as demandas reais da população.
Acontece que o Legislativo tem
assumido, cada vez mais, um papel dominante na alocação de fatias bilionárias
do orçamento nacional; porém, municípios distantes ou sem representantes fortes
no Congresso ficam completamente desamparados, ampliando as assimetrias da
desigualdade no que diz respeito ao acesso a serviços básicos.
Tendo em vista de que essas emendas
são voláteis e mudam conforme o ano eleitoral, as prefeituras acabam assumindo
despesas permanentes sem garantias de receitas futuras, agravando as crises
fiscais nos municípios.
De modo que uma obra local criada
para gerar ganho político imediato, caso o parlamentar que a destinou não seja reeleito,
o projeto perde financiamento, gerando desperdício e esqueletos de concreto
país afora.
Contudo, apesar de todos os
pesares, analisando o recorte temporal entre 2023 e 2026 (até o momento), a
economia brasileira apresentou crescimento contínuo do PIB, controle gradual da
inflação; embora, as taxas de juros permaneçam em patamares ainda elevados.
O PIB em 2023, cresceu 2,9%,
superando as previsões iniciais do mercado, e a inflação (IPCA) fechou o ano em
4,62%. Em 2024, o PIB avançou 3,4%, impulsionado pelos setores de serviços e
indústria, e a inflação registrou alta acumulada em torno de 4,83%. Em 2025, o
PIB cresceu 2,3%, totalizando cerca de R$ 12,7 trilhões. A inflação fechou o
ano acumulada em 4,26%, índice que ficou abaixo do teto da meta de inflação
estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que era de 4,50% com
centro em 3,00%.
Em 2026, a projeção geral para o
fechamento do PIB de 2026 fica em torno de 1,9%; sobretudo, pelo aperto nos
juros que cumpre o papel de desaquecer uma economia que vinha operando perto do
limite, gerando um efeito colateral de crescimento mais suave, e o crescimento
global moderado, marcado por incertezas geopolíticas e inflação persistente no
exterior, que afetam o ritmo das exportações brasileiras em comparação aos anos
anteriores. Quanto à inflação em 2026, projeção do mercado financeiro é de
5,01%.
E dentro desse panorama é possível
destacar que entre 2023 e 2026, a economia brasileira registrou resultados
positivos importantes, tais como a queda histórica do desemprego, o avanço em
indicadores de redução da pobreza e segurança alimentar, o crescimento contínuo
do Produto Interno Bruto (PIB) e o avanço no ranking global, o Brasil é a 10ª
maior economia do mundo em 2026, refletindo o tamanho e a relevância da
produção nacional de bens e serviços.
De modo que o país superou o
Canadá no ranking global de Produto Interno Bruto (PIB) medido em dólares
correntes. E se consideramos a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI)
quanto ao PIB brasileiro, esse deve alcançar a marca estimada de US$ 2,63
trilhões até o fim do ano, impulsionado pela resiliência da atividade doméstica
e pela trajetória favorável do câmbio.
Por isso, questionar um argumento
apoiado em números exige cautela, atenção e disposição de cada cidadão.
Infelizmente, essa matemática da conveniência transforma a estatística, que
deveria ser uma ferramenta de diagnóstico e verdade, em um espelho que apenas
reflete e justifica os preconceitos ou interesses de quem a manipula.
Não se esqueça de que a
estatística realizada e aplicada sem ética serve apenas como uma máscara
técnica para narrativas de conveniência. Muitas vezes, os números são tratados
como verdades absolutas e neutras, mas a escolha de quais dados considerar,
quais devem ser mostrados, como cruzá-los e quando divulgá-los é um exercício
profundamente humano e ideológico.
