Às escondidas ...
Às escondidas
...
Por Alessandra
Leles Rocha
Muita gente considera normal que
a vida seja permeada por fatos, acontecimentos, eventos e/ou documentos
mantidos em sigilo e feitos às escondidas. Bem, devo informar que não! Não há
normalidade, trivialidade, nisso! Nas entrelinhas dessas práxis estão questões
que, se não fossem extremamente importantes e merecessem uma reflexão atenta
das pessoas, não precisariam ficar ocultas.
Portanto, essa realidade construída
às escondidas costuma impedir o acesso a certos aspectos fundamentais para o
desenvolvimento e o equilíbrio coletivo ético e social. Não é sem razão que
essa seja uma estratégia comumente utilizada, então, pelos elementos
pertencentes as mais altas camadas da pirâmide social.
A ideia de que são os detentores dos
poderes de agir, produzir efeitos, influenciar ou dominar pessoas e situações é
que lhes fazem pensar que podem manter às escondidas certas escolhas e decisões.
O que deixa claro como há uma
assimetria da informação na sociedade, inclusive, de maneira histórica. Trata-se,
portanto, de uma das ferramentas mais utilizadas para a manutenção do status
quo e da desigualdade social.
Bom, não deveríamos nos
surpreender. Afinal, basta um pouco mais de atenção ao mundo que nos cerca para
perceber como certas decisões, que afetam direta ou indiretamente a
coletividade, são tomadas longe do debate público, decididas pelas classes dominantes
para que não haja questionamentos ou insurreições.
Ora, elas utilizam o segredo não
por acaso, mas como uma estratégia deliberada para perpetuar sua capacidade de
influenciar, dominar e ditar os caminhos sociais. Como expresso anteriormente, ela
molda as estruturas sociais há séculos, determinando quem tem o direito de agir
e quem apenas sofre os efeitos dessas ações.
Então, de repente, as respostas
começam a emergir. A relação entre a assimetria da informação e o colonialismo/imperialismo
fica óbvia, quando aqueles que detinham o controle dos dados, da cartografia,
da comunicação e do conhecimento científico, faziam desse monopólio para
dominar, explorar e subjugar populações inteiras.
Acontece que essa relação não
terminou com o fim dos impérios formais, ela se reconfigura no chamado
colonialismo de dados. Isso significa que, na contemporaneidade, as grandes
corporações e nações do Norte Global detêm a infraestrutura tecnológica, os
algoritmos e os servidores que coletam dados massivos do Sul Global.
Desse modo, o Sul Global é
colocado na posição de consumidor de tecnologia e fornecedor de dados brutos comportamentais,
financeiros, de recursos, enquanto o Norte Global processa esses dados para
ditar tendências econômicas, influência eleitoral e extrair valor financeiro,
perpetuando a mesma lógica de dependência e controle informativo do passado.
A grande questão é que a
assimetria da informação, os comportamentos às escondidas, os sigilos, não são
apenas um problema grave quando estabelecem a sua dinâmica de fora para dentro.
O pior é quando eles se dão
internamente; sobretudo, ao nível institucional, dos Poderes, das
representações político-partidárias nacionais. Porque a assimetria de
informação e a falta de transparência interna destroem a confiança, minando a
própria base da democracia antes mesmo que os efeitos cheguem ao público.
Quando os próprios pilares do
Estado, ou seja, os Poderes e os partidos políticos, operam sob lógicas de
sigilo e agendas ocultas entre seus membros, o sistema entra em colapso por
três motivos principais.
Primeiro, porque o cidadão vota
em uma plataforma eleitoral, mas as decisões reais são tomadas em negociações
de bastidores que nem os próprios correligionários dominam. Segundo, porque a
informação vira moeda de troca e arma política interna, paralisando a
cooperação necessária para governar. Terceiro, porque cria-se uma casta que
protege seus interesses próprios em detrimento do interesse público, gerando o
corporativismo.
Durante o período entre 2019 e
2022, por exemplo, o Brasil experimentou a assimetria da informação a partir de
milhares de documentos que foram colocados em sigilo de 100 anos, sabe-se lá
porque razão.
Em geral, a justificativa técnica
e jurídica mais utilizada para impor esses sigilos foi o artigo 31 da Lei de
Acesso à Informação (LAI), o qual prevê que informações pessoais relativas à
intimidação, vida privada, honra e imagem deveriam ter acesso restrito por até
100 anos, independentemente da classificação de segurança.
No entanto, houve uma série de
desvios na aplicação desse artigo, usando-o para ocultar os atos políticos e
administrativos de interesse público. De modo que o atual governo revisou e
retirou o sigilo desses documentos, cumprindo uma de suas principais promessas
de campanha.
Assim, tiveram o sigilo quebrado
ou revisado as visitas ao Palácio da Alvorada, o cartão de vacinação do
ex-Presidente da República, os gastos com cartão corporativo do governo, e processos
administrativos específicos, como o processo disciplinar do Exército contra um
ex-ministro e general que foi ministro no governo anterior.
E para evitar o uso automático do
bloqueio centenário, o atual governo editou decretos e diretrizes determinando
que informações pessoais não devem fechar o documento inteiro, passando a
utilizar a aplicação de tarjas em trechos restritos, tais como dados pessoais, mantendo
o restante do texto aberto ao público.
Veja, é preciso compreender que a
assimetria da informação representa uma forma de alijamento do cidadão,
tornando aqueles que não pertencem às esferas dominantes, indivíduos de segunda
classe, menos importantes.
Acontece que para manter as
regalias e os privilégios de quem pertence ao topo da pirâmide social;
sobretudo, nas democracias, é preciso do voto e do trabalho do restante que compõe
a base. O que significa que eles não são tão desimportantes como se tenta fazer
parecer.
É chegada, então, a hora de
começar a olhar e a pensar que a assimetria da informação não é um acidente,
mas um mecanismo de controle e manipulação social.
Ao privar a base populacional da
pirâmide do conhecimento técnico, jurídico e político, neutraliza-se a
capacidade de contestação efetiva. Afinal, as classes dominantes dependem totalmente
das camadas abaixo para a legitimação dos seus poderes. De modo que existe uma
vulnerabilidade das elites que precisa ser mascarada para evitar a inversão
dessa força.
E a ferramenta utilizada para
esse fim é a fragilização da autoestima coletiva dessas pessoas. É através dela
que torna possível fazê-los aceitar concessões mínimas como se fossem
privilégios, e não direitos fundamentais.
Caro (a) leitor (a), assim, essa contradição
reside no fato de que o topo só se sustenta porque a base se move, mas o
sistema opera para que a base nunca perceba o tamanho do próprio peso.
A verdade é que a história não
pode viver às escondidas, sob sigilos e invisibilizações. Ocupar o topo do
poder e decretar o esquecimento não muda o tecido da realidade. O fato
aconteceu. Ele gerou consequências, deixou vestígios, moldou comportamentos e
marcou vidas. O desligamento institucional cria apenas uma ilusão temporária de
controle.
Portanto, a verdade factual não
depende de decreto para existir, ela simplesmente existe. Ela sobrevive em
diários escondidos, em páginas de jornais e livros, em memórias passadas de
geração em geração, em valas comuns que exigem respostas, ou em documentos que
um dia serão abertos.
Afinal, como a história é feita
por pessoas, o desejo humano por justiça e reconhecimento funciona como um
motor constante para escapar ao que foi enterrado.
Por essas e outras é que ela não é um monumento estático de pedra. Ela é um processo vivo. Nesse sentido, o sigilo pode durar décadas, às vezes séculos, mas a fissura entre a mentira conveniente e a verdade factual sempre acaba se expandindo até que a realidade venha à tona.
