Como dizia o poeta Mário Quintana, “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...”
Como dizia
o poeta Mario Quintana, “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre
presente...”
Por
Alessandra Leles Rocha
Êpa! Essa história de que o
passado passou, não é bem assim! De fato, tudo o que já aconteceu, foi
realizado, pensado, decidido, não há como mudar, alterar, corrigir.
Seus desdobramentos e reverberações
não podem ser interrompidas, na medida em que os fatos, os acontecimentos, o
passado em si existiu. Nada se apaga por estar no passado. Você pode negar,
fingir que não sabe, que não viu, ... mas, nada disso muda o curso da história.
Por essas e outras é que apesar da
pós-verdade, a verdade factual continua existindo e se mantendo de pé. É, por
mais que se tente criar uma narrativa alternativa, ilusória, ficcional, emocional,
o fato bruto permanece lá, resistindo às tentativas de apagamento.
Nenhuma narrativa posterior, por
mais poderosa ou amplamente divulgada que seja, tem o poder retroativo de
apagar, de fazer desaparecer, o que aconteceu. O fato é inflexível. Por isso, a
verdade factual não precisa de opinião para continuar existindo, ela
simplesmente é.
Além disso, é preciso entender
que o passado não habita apenas livros de história. A verdade é que ele molda
as estruturas do presente. Nesse sentido, as desigualdades sociais, os traumas
psicológicos, as feridas institucionais e as dinâmicas geopolíticas atuais são
os ecossistemas vivos de escolhas passadas.
O fato existe e as consequências
darão testemunho dele todos os dias, apesar de a pós-verdade e o negacionismo
tentarem manipular a percepção coletiva.
Por quê? Porque eles operam em um
terreno frágil. A mentira exige manutenção constante, vigilância e atualização
ideológica para se manter de pé, enquanto a verdade factual simplesmente é
sustentada pelas evidências, pelos vestígios e pelos impactos reais que deixam
no mundo.
Por isso, tentar ignorar ou
reescrever o passado não muda o curso da história, apenas condena o indivíduo
ou a sociedade a caminhar às cegas, em círculos, colidindo com as paredes de
uma realidade que eles escolheram não enxergar. Daí o incômodo, o desconforto
em relação à verdade factual; pois, ela não se curva a vontades, quereres, conveniências
ou discursos.
Como dizia o filósofo chinês
Confúcio, “Se queres prever o futuro, estuda o passado”. De certo modo, ela
serve como uma lente cirúrgica para analisar os recentes acontecimentos
políticos, jurídicos e sociais na República Federativa do Brasil.
Haja vista o modo como a história
brasileira não caminha em linha reta, operando em constantes ciclos de
rupturas, conciliações sociais seletivas e obrigações institucionais que se
repetem com nova roupagem.
Razão pela qual, o fato de o país
ainda orbitar em torno de figuras personalistas, gerar um cansaço evidente
dessa fórmula junto à população.
Fazendo com que as instituições
tentem se impor pela força da lei, ao mesmo tempo em que a percepção popular de
parcialidade corrói a sua autoridade legal, pelo simples fato de que a história
da República revela que o distanciamento das demandas reais da população para
se fechar em acordos de cúpula, só pode sinalizar um futuro construído por
crises de legitimidade e de rupturas institucionais.
Contudo, é desse caldo indigesto
e absurdo que não só a ironia e o ceticismo em relação às instituições tornaram-se
mecanismos de defesa do cidadão comum, como vêm permitindo uma secundarização
da realidade factual; sobretudo, por parte daqueles que compactuam com o ilícito.
De modo que uns e outros, por aí,
tentam se valer de um certo controle da narrativa e da exclusão da maioria do
debate real. Assim, o voto de cabresto da República Velha vai sendo repaginado
e modernizado, permitindo que os coronéis de outrora cedam seus lugares aos
donos de plataformas e grandes influenciadores políticos.
Daí a necessidade de compreender
e aceitar que, enquanto o Brasil priorizar a pacificação das elites econômicas
e políticas em detrimento da resolução de suas fraturas estruturais históricas,
como a desigualdade, o racismo estrutural e a fome de representatividade, o
futuro reservará mais do mesmo, ou seja, uma democracia de baixa qualidade,
vulnerável a espaços autoritários e crises cíclicas.
O que acontece nesse momento na
história brasileira representa um importante aviso de que a República só
romperá esse movimento, quando a ética da responsabilidade prevalecer sobre a
ética do ganho imediato.
Portanto, essa transição não é apenas uma mudança moral individual, mas uma necessidade de reforma estrutural que exige o fortalecimento da sociedade civil, a impessoalidade jurídica e o banimento de arranjos corruptos que priorizam o benefício privado em detrimento do futuro da nação.
