Parece ... Mas não é.

Parece ... Mas não é.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

De maneira franca, clara e objetiva, a identidade é algo pessoal e intransferível, o que significa que ela pertence a apenas um indivíduo e não pode ser dada ou emprestada a outra pessoa. Dito isso, por mais que um (a) filho (a) se pareça de algum modo com seus genitores, cada indivíduo tem a sua própria história.

O que move essa reflexão advém do que está presente nas mídias sociais. As figuras de dois pais e dois filhos são o objeto de uma análise bastante importante e interessante.

No primeiro caso, o pai já foi Presidente da República. Portanto, já submeteu o seu trabalho e a sua história política ao escrutínio popular. O filho, primogênito, dada a impossibilidade jurídica do pai concorrer a um novo pleito, se colocou na disputa. Seus anos na política trouxeram uma experiência limitada ao Legislativo. Razão pela qual, ele se apega de todas as maneiras ao nome do pai como se o papel de sucessor político, de maneira automática e instantânea, fosse reproduzir também uma apropriação identitária.

No segundo caso, o pai é Presidente da República. Inclusive, está em seu terceiro mandato. O que significa que o seu trabalho e a sua história política se permitiram colocar em escrutínio popular mais de uma vez. O filho, primogênito, nunca manifestou pretensões políticas. No entanto, dado o viés político-partidário do pai, ele sempre esteve no alvo dos opositores sob alegações de alguma conduta ilícita, sem que nada fosse, de fato, comprovado.

Por quê? Porque a historicidade brasileira, marcada por um modelo colonial, consolidou uma herança política em que os poderes costumam seguir, quase sempre, o fluxo da hereditariedade familiar. Então, torná-lo objeto de contestação pública, apesar de ele não ter escolhido ocupar um lugar na vida política, se torna um modo de tentar afetar ou arranhar a imagem do pai.

Acontece que na escolha democrática, o candidato é um individuo dotado de identidade própria. O registro e a votação são baseados puramente na figura do indivíduo, não existindo candidaturas coletivas ou de listas fechadas independentes de nomes.

Cada candidato concorre sob um número e nome de urna específicos; bem como, ele responde individualmente pelo que diz, pelo que promete, por suas contas e atos de campanha. E é sobre essa figura que o eleitor deve dedicar a sua análise crítica.  

O exercício do voto consciente, na democracia, implica necessariamente em avaliar de maneira profunda e objetiva os pretensos candidatos. Verificar mandatos anteriores, projetos aprovados e coerência partidária. Investigar a existência de processos judiciais ou condenações por corrupção. Ler as propostas oficiais ou planos de governo registrados na Justiça Eleitoral. Analisar se os projetos possuem orçamento e base legal realizáveis. Identificar quem são os principais doadores e grupos de interesse do candidato.

Informações que podem ser obtidas na Plataforma do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nos portais de transparência, os quais incluem os sites da Câmara, do Senado ou das assembleias legislativas.

A escolha representativa político-partidária deve, então, basear-se em propostas concretas e de competência administrativa, e não em distorções de identidade ou expectativas ilusórias. Quando o voto é guiado por visões de projeções identitárias irreais, o debate público perde profundidade técnica e passa a ter foco em narrativas superficiais e equivocadas.

De modo que para superar esses vieses há de se construir uma análise de histórico, avaliando o passado político, as votações anteriores e os processos do candidato. Um profundo estudo de propostas, verificando a viabilidade econômica e técnica dos planos apresentados. Exercendo uma cobrança partidária a partir do monitoramento do partido político quanto aos apoios em projetos alinhados ao interesse coletivo.

Mas, para isso, só consumindo notícias de diferentes veículos de imprensa para evitar bolhas de informação. Afinal, elas são tentáculos que capturam a sua liberdade de escolha e te fazem refém das decisões de outras pessoas que você sequer conhece ou já ouviu falar. O que geralmente acontece por meio de algoritmos, personalização de feeds e viés de confirmação.

Portanto, desconfie de conteúdos que parecem feitos sob medida para agradar ou irritar você. Limpe o seu histórico de navegação e redefina as preferências dos seus aplicativos. Busque a diversidade! Leia sites e perfis com pontos de vista contrários aos seus. E não se esqueça, “O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça” (Coco Chanel - estilista e empresária francesa).