O poço sem fundo
O
poço sem fundo
Por
Alessandra Leles Rocha
Tenho comigo que as entrelinhas são
sempre mais importantes do que as linhas, pois nelas estão verdades, muitas vezes,
pouco palatáveis, mas essenciais para a nossa sobrevivência e percepção do
real. Quando o anúncio sobre o adiamento do Censo Demográfico para o próximo
ano foi divulgado, muito se falou sobre os prejuízos significativos que
decorreriam disso para a formulação de políticas públicas e melhor gestão por
parte dos governos municipais, estaduais e federal. Entretanto, essa é apenas a
percepção direta dos fatos, a ponta do iceberg
que rasga o casco da nossa nau lentamente.
Talvez nunca tenham se disposto a
pensar que no Brasil vive-se a discutir o dinheiro. Orçamento é o cerne do
interesse político nacional. Que ministérios têm mais recursos. Que obras são
mais onerosas. O custo das campanhas eleitorais. O percentual de reajuste dos
salários. Desvios de dinheiro público sendo investigados. Acordos de leniência para
reaver montantes subtraídos do erário nacional. O desempenho do mercado de
valores. Enfim... Uma meia explicação
para um país que vive os altos e baixos da economia capitalista, sem se
preocupar com o que isso de fato significa.
Afinal, se o dinheiro é a mola
propulsora do processo, ele não pode transitar dissociado de um propósito, de
um fim. É justamente nesse ponto que está o problema. O Brasil navega há
séculos sem rumo, sem planejamento, sem propósitos bem definidos e capazes de
orientar a aplicação correta dos recursos. E como diz a magistral canção de
Paulinho da Viola, “dinheiro na mão é vendaval...” 1.
Muito. Pouco. Não importa.
Não há como
discordar que as campanhas políticas no Brasil trabalham com promessas ao invés
de propostas fundamentadas em planos de trabalho. Há, nesse contexto, uma demonstração explícita
do total desconhecimento da máquina pública, ao ponto dela se tornar disforme e
disfuncional, consumindo demasiadamente os recursos sem apresentar resultados compatíveis
e satisfatórios ao tamanho do investimento. Já parou para pensar quantos
ministérios, secretarias e autarquias compõem as administrações públicas em
nível Municipal, Estadual e Federal? Então.
Por consequência,
uma enxurrada de ideias é colocada em prática na ausência de planejamento técnico,
de projetos bem estruturados e, particularmente, economicamente viáveis. De
modo que serviços de péssima qualidade se arrastam por décadas, sendo remodelados
por ajustes que custam quase o valor inicial da obra, tornando-a, portanto, um
poço sem fundo de recursos perdidos. Em alguns casos, ainda que a custa de mais
investimento, consegue-se usufruir do resultado final; mas, uma grande maioria
se perde entre ferragens e escombros de concreto deteriorado sem nenhuma função
social.
Se a
corrupção parece sem fim é por movimentos absurdos dessa natureza. Sem destino certo, sem planejamentos e
projetos que indiquem o caminho preciso do dinheiro, é óbvio que ele vai se
perder pelos labirintos da gestão pública, favorecendo a cronificação de
mazelas sociais que já deveriam ter sido superadas há séculos, enquanto
abastecem os veios de riqueza da iniciativa privada. Nesse contexto, a
sociedade reclama choramingando; mas, segue alienada pelo discurso que só alimenta
uma narrativa em torno da eterna escassez de recursos, como justificativa ao
imobilismo governamental, no que tange ao desenvolvimento e ao progresso do
país.
Curioso é
perceber que apesar dos pesares, o miserê é seletivo. Por quê? Porque sem destino
certo, sem planejamentos e projetos que indiquem o caminho preciso do dinheiro,
é óbvio que ele vai ser gasto de acordo com interesses muito pouco republicanos.
Um hospital de campanha daqui. Um satélite novo dali. Um lote de vacinas, que
nem se sabe a eficácia, acolá. ... Vai mover as engrenagens de promessas que
irão nutrir o ciclo de novos pleitos eleitorais. Vai abastecer as fogueiras das
vaidades, dos desvarios. Vai criar caminhos para fazer crescer a sua insuficiência,
dilapidando gradativamente as reservas e flertando acintosamente com o
endividamento público.
O Brasil
trilha a risca de sua própria história. Navega sem rumo. Chega por obra do
acaso. Não tem mapa. Não tem bússola. Não tem diretriz. Não tem direção. Vai
para frente. Vai para trás. O pior é que não parece preocupado. Não se aflige. Só
faz reluzir a imagem de que está acostumado às incertezas e aos progressos poucos
e tardios. Sua única preocupação é o dinheiro... Reminiscência dos tempos da
monarquia, de baús cheios de ouro, de prata, de pedras preciosas. E assim, o
país se arrasta ensandecido pelo tilintar das moedas. Forjado na herança
colonial, subserviente e mendicante, hipnotizado pelo vil metal e suas vãs promessas
de ascensão e poder.
Até quando?
Essa é a pergunta. É nela que reside a transformação pela ruptura com o
comodismo. Enquanto o pensamento permanecer focado no dinheiro, boa parte da
sociedade vai continuar reclamando a presença da miséria, do desemprego, da violência,
da aposentadoria insatisfatória,... e de todas as desassistências que persistem
a partir da ausência de governança pautada por planejamentos e projetos que
indiquem o caminho preciso do dinheiro. Se nada for feito nesse sentido, a
narrativa de uma carência de recursos crônica só irá acentuar cada vez mais, na
dinâmica de um verdadeiro poço sem fundo prestes a engolir todos os vinténs.
