Segundo Bertolt Brecht, “Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Acabo de descobrir que há controvérsias.
Segundo Bertolt
Brecht, “Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Acabo
de descobrir que há controvérsias.
Por
Alessandra Leles Rocha
Mais do que os enviesamentos e
distorções que compuseram as análises das pesquisas eleitorais de 1º turno, no
Brasil, esteve na incapacidade social em dissecar as camadas da realidade, o
grande motivo da perplexidade diante dos resultados.
Ainda que 25,85% dos cidadãos
brasileiros configurem o quadro de abstenções, votos nulos e brancos, isso é
parte integrante daquilo que deve ser analisado por todo o coletivo social, em
razão de que as ações individuais repercutem em desdobramentos amplos e plurais
sobre todos.
De modo que foi impossível não
pensar, logo de saída, na imagem do Domingo de Ramos na medida da ambivalência
da condição humana e a subversão das estruturas de poder mundanas. Ao menos
alguns daqueles que compuseram a multidão que aclamava o atual líder com palmas,
dias depois, clamou por seu insucesso.
Expondo a fragilidade das
convicções sociais e a facilidade com que o ser humano se rende à pressão do
coletivo e ao medo. Demonstrando que a trajetória da verdade exige a travessia
pelo sofrimento e pela rejeição.
E aí está o primeiro ponto
importante, a alienação tecnológica. A despreocupação com os valores e princípios
humanos, gerada pelo avanço tecnocientífico, se traduz pela deterioração e o esgarçamento
da construção do pensamento ético humano. As telas têm tornado os indivíduos
cada vez mais rasos e superficiais na medida em que a avalanche de informações
por segundo impede qualquer reflexão e análise mais aprofundada.
É nesse movimento, então, que a
política do medo surfa sem resistência. Em uma sociedade com o pensamento
crítico enfraquecido e incapaz de aprofundar debates, o ambiente se torna o
terreno ideal para a instalação do medo; pois, sem a resistência intelectual,
discursos alarmistas, polarizadores e manipuladores proliferam facilmente, apelando
diretamente ao emocional e ao instintivo, e não à razão.
Instalada a alienação, a farra
das emendas parlamentares, conhecidas como Orçamento Secreto ou Emendas PIX, foi
uma hábil construção para surfar, também, nessa onda. Inteligentemente, muitos
dos representes no legislativo aproveitaram da dimensão continental do país
para valerem-se das carências e necessidades do “Brasil profundo” e fortalecerem
seus interesses pouco ou nada republicanos.
Considerando que inúmeros municípios
pequenos e distantes dos grandes centros econômicos possuem baixa arrecadação
própria e dependem quase inteiramente de repasses federais e estaduais para
investimentos básicos, tais como ambulâncias, pavimentação ou reformas, ao
direcionar esses recursos diretamente para prefeitos aliados nessas regiões, certos
parlamentares consolidam seu capital político e garantem bases eleitorais
fortes para as próximas eleições.
De modo que a distribuição nem
sempre segue critérios técnicos de necessidade socioeconômica, mas sim
critérios de conveniência política. O envio de emendas parlamentares
de forma obscura tende a se tornar, então, uma nova versão do voto de cabresto
no século XXI; posto que, prefeitos e lideranças regionais tornam-se
excessivamente dependentes da liberação dessas emendas para realizar obras
básicas, condicionando o apoio político e o direcionamento de votos daquela
população nas eleições seguintes ao parlamentar padrinho da obra.
Acontece que essa práxis encontrou
a resistência do Supremo Tribunal Federal (STF) que interveio em diferentes
momentos, como no julgamento do fim do Orçamento Secreto, no final de 2022, e
em decisões subsequentes exigindo maior transparência e rastreabilidade para as
Emendas PIX, forçando o Congresso e o Executivo a renegociarem as regras de
controle desses valores. Contudo, como se pode ver, o impacto foi consolidado. Haja
vista, a composição do Legislativo que iniciará o mandato em 2027.
Fato que abriu um conflito direto
entre esses Poderes que foi amplificado e potencializado pelas narrativas da
extrema-direita, que em todo o mundo, incluindo o Brasil, tem como propósito a
desconstrução da Suprema Corte para implementar suas próprias leis.
Sob essa perspectiva, o
questionamento sistemático das decisões judiciais e a tentativa de deslegitimar
os tribunais buscam enfraquecer os mecanismos de freios e contrapesos,
permitindo que maiorias políticas ou lideranças de vertente populista governem
sem as amarras constitucionais.
Nesse sentido, a
instrumentalização da alienação popular contribuiu significativamente para uma
polarização profunda sobre os limites da autoridade de cada Poder da República na
democracia moderna, onde a interpretação da Constituição e o escopo de atuação
dos juízes se tornaram o centro de intensas disputas narrativas. Inclusive,
descortinando os desvirtuamentos éticos da própria Suprema Corte.
Quando a população é alienada ou
instrumentalizada por discursos simplistas, debates complexos sobre freios e
contrapesos são reduzidos a uma lógica de nós contra eles, deixando de ser vista
como uma atividade eminentemente jurídica e passando a ser tratada como um ato
político.
Então, ao entrar no olho do
furacão político, o comportamento dos magistrados passa por um escrutínio
inédito, com críticas legítimas sobre a conduta ética de juízes, decisões
monocráticas excessivas ou alinhamentos partidários, que se misturam aos
ataques orquestrados que visam deslegitimar a própria instituição. Resultando
no desgaste da autoridade moral que a Suprema Corte precisa para pacificar
conflitos sociais.
E não bastasse todas essas
questões, a geopolítica global contemporânea resgatou velhas ideologias para
rivalizar e consolidar um novo padrão imperialista. O que fez do pleito
eleitoral brasileiro um alvo de disputa importante.
A tal ponto que foi amplamente
noticiada a intenção intervencionista estadunidense no processo, tanto pela mídia
internacional e autoridades do cenário político dos EUA, quanto pesquisadores da
área de relações internacionais.
Sim, todos eles relataram um
posicionamento ativo de autoridades dos Estados Unidos em relação ao pleito
brasileiro, focado principalmente em desestimular tentativas de ruptura
institucional e garantir um resultado legitimo das urnas.
Também, duas cartas foram
enviadas recentemente ao Secretário de Estado dos EUA, por parlamentares estadunidenses
do Partido Democrata e independentes, alertando sobre o risco de interferência
do governo dos EUA nas eleições presidenciais do Brasil. Fato que reflete como
a estabilidade democrática do Brasil e o seu alinhamento externo são
estratégicos para o cenário internacional.
Mas, apesar de todos esses
apontamentos, o que resta claro e límpido com o resultado do 1º turno eleitoral
é o que rege a essência da identidade cidadã brasileira. A subserviência colonial
é muito mais profunda do que se acreditava.
Estender bandeiras estrangeiras
em atos cívicos nacionais, compactuar publicamente com o entreguismo nacional, defender
a opressão e a tirania de entes internacionais, reafirma que os 526 anos de
história construíram esse tipo de identidade entre muitos dos que se dizem
brasileiros (as).
Não restam dúvidas de que, sob
essa ótica, parte da população e das elites priorizaria agendas externas em
detrimento do desenvolvimento autônomo e da valorização da própria cultura e
soberania.
Infelizmente, o passado colonial
ainda molda as escolhas e decisões políticas do presente. Como se essas pessoas
abdicassem voluntariamente da própria responsabilidade e julgamento moral para
seguir regras institucionais e ordens de uma autoridade estrangeira.
Assim, o que parece uma submissão
voluntária é, na verdade, a fusão de uma estrutura psicológica de obediência à
autoridade com as sequelas culturais de um passado colonial, que condiciona o
indivíduo a achar mais seguro seguir regras prontas do que assumir o risco da
soberania e da autonomia.
Acontece que esse movimento
implica em custos e riscos inimagináveis, inclusive, capazes de levar a um
retrocesso secular. A busca por essa pseudossegurança de um tutor ou de um
sistema autoritário cobra um preço altíssimo.
Quando uma sociedade renuncia
coletivamente à sua autonomia, à sua soberania, em troca de uma pseudoestabilidade
ou ordens rígidas, ela pavimenta o caminho para o autoritarismo. De modo que as
instituições democráticas e o pensamento crítico levam gerações a serem
construídos a partir de uma percepção na qual se prefere a servidão confortável
ao risco da liberdade.
Bem, já dizia Demócrito, filósofo
grego, “Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo”.
Por isso, os 125.275.835 eleitores que compareceram às urnas no primeiro turno
das eleições de 2026, a partir das suas escolhas representativas, descontruíram
por completo seus discursos inflamados contra à corrupção, o tráfico de
influências, o suborno, o peculato, o nepotismo, a fraude em licitações, às vantagens
ilícitas ou favores pessoais, à violência, às facções criminosas.
É, questões tão amplamente
publicizadas nos últimos tempos no país, de repente, se mostraram invisíveis e
inertes a qualquer desconforto ou incômodo social, por parte de uma parcela
significativa de eleitores (as) que foram às urnas.
O fato de escolherem candidatos
sob escrutínio público refletiu um cenário onde a avaliação de fatos estarrecedores
e eticamente deploráveis, pesou menos do que os parâmetros morais que devem
guiar uma sociedade que almeja progresso e desenvolvimento.
Foi sim um voto cada vez mais baseado na rejeição a um determinado grupo político, a partir de voto útil ou defensivo; bem como, da abstenção eleitoral, fazendo com que o cidadão minimizasse questões éticas de seu candidato escolhido para evitar a vitória de um adversário que, na verdade, foi construído a partir de preconceitos que servem para manter ativa uma polarização política no país.
