Como dizem, por aí, "algo de errado não está certo"!

Como dizem, por aí, "algo de errado não está certo"!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Como já é de conhecimento público, EUA e a Austrália anunciaram, hoje, o fechamento de seus consulados no Brasil por questão de segurança.

Cheguei, inclusive, a pensar se os países que formam a tal coalizão internacional de segurança, militar e coordenação política liderada pelos EUA, denominada Escudo das Américas, iriam participar também.

Mas, as horas se passaram e nenhum outro país se manifestou a respeito. Diante do estranhamento me debrucei a pensar e alguns fatos são interessantes para a reflexão.

Há uma cidadã australiana, considerada a pessoa mais rica da Austrália, que é uma ferrenha defensora da agenda política do atual governo estadunidense, pertencendo a um grupo de mulheres influentes que apoiam o líder dos Republicanos.

Presença constante em eventos e celebrações na residência do presidente dos EUA em Mar-a-Lago, ela tornou-se uma das principais acionistas da mineradora australiana Brazilian Rare Earths (BRE), que coordena o Projeto Monte Alto, focado na exploração de uma gigantesca reserva de terras raras e urânio no Vale do Jiquiriçá, na Bahia.  

Inclusive, esse projeto tem gerado forte mobilização local e controvérsia devido ao impacto ambiental em áreas de preservação e à pressão sobre comunidades rurais para a venda de terrenos.

Mas, o ponto principal dessa história envolve a Rockbridge Network, uma organização conservadora americana cofundada pelo vice-presidente eleito dos EUA, cujas informações veiculadas pela mídia apontaram que essa rede e aliados do entorno do atual presidente dos EUA passaram a se articular politicamente no Brasil.

Candidatos e opositores no cenário eleitoral brasileiro chegaram a denunciar que esses movimentos e redes americanas buscam influenciar o cenário político do país para facilitar a concessão e a garantia de contratos bilionários de exploração de minerais estratégicos, como as terras raras da Bahia.

Por isso, dissipa a ideia de estranhamento, considerando que só EUA e Australia tenham, sem maiores esclarecimentos e robustas fundamentações, decidido suspender os seus atendimentos presenciais e serviços consulares no Brasil, nesta sexta-feira. Inclusive, porque o fechamento ocorre às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras.

Na realidade frenética e enovelada da contemporaneidade, não é possível analisar as informações de maneira rasa e superficial. Mais do que as linhas, é nas entrelinhas que as ideias emergem e descortinam as verdadeiras intenções. O que está na superfície costuma ser apenas a fachada. O sentido real opera nos bastidores do texto, da fala e da imagem.

É preciso entender que todo discurso nasce em uma época, lugar e cultura específicos. Desse modo, se debruçar a compreender o cenário ao redor da mensagem ajuda a perceber o que se encontra invisibilizado, oculto, omitido.

Não se pode esquecer de que o silêncio também comunica. Muitas vezes, o que é deliberadamente deixado de fora de uma narrativa é justamente o ponto mais crucial. Frente a um cenário saturado de dados, exercitar esse olhar investigativo deixa de ser apenas uma habilidade intelectual e passa a ser uma ferramenta de emancipação, de autonomia, de cidadania.

Como dizia Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”. Quando transposta para a geopolítica e a história da América Latina, especialmente diante do neoimperialismo contemporâneo, essa citação se conecta diretamente com a tensão entre a dominação externa e a busca por soberania.

Enquanto o neoimperialismo contemporâneo opera fortemente no campo político-econômico, tentando fazer com que os povos colonizados aceitem a liderança das potências globais de forma passiva, a verdadeira essência latino-americana reside na sua capacidade de resistir, reinventar suas estruturas e lutar de forma autônoma para transformar sua própria realidade.