Sob um céu de incerteza...
Sob
um céu de incerteza...
Por
Alessandra Leles Rocha
Sob um céu de incerteza estamos
todos nós. Mas, nesse momento, a diferença é que um exército de partículas ínfimas,
denominado de COVID-19, avança determinado sobre todo o planeta. Nesse combate
estamos em desvantagem, tanto em relação ao armamento, quanto em relação à própria
estratégia, porque o inimigo é totalmente desconhecido. A filosófica discussão
entre a vida e a morte saiu, portanto, do campo imaginário para o campo da mais
impactante realidade.
Duas vertentes caminham lado a
lado nesse contexto, a Saúde Pública e a Economia. Duas ciências que deveriam
dialogar de maneira franca e objetiva, na medida em que elas têm em comum o ser
humano como pano de fundo. A incapacidade ou a insuficiência por elas
determinadas podem sim, reduzir ou até exterminar as expectativas de vida de milhões
de pessoas, mundo afora.
O não provimento de recursos é um
ponto chave para os que estão no fronte de combate, lutando ao lado da Saúde
Pública; mas, também, para todos os cidadãos que estão temporariamente parados
em razão da desaceleração da atividade econômica ocasionada pela Pandemia.
Para esse grupo onde estão patrões,
empregados, informais, temporários e desempregados, as atenções
impõem a necessidade de um senso de justiça, imparcialidade e respeito à
igualdade de direitos, como jamais se viu. Equivocam-se, portanto, as politicas econômicas
tratadas de maneira enviesada e tendenciosa a prescindir de espírito coletivo.
É imperioso romper o paradigma de
que pessoas representam custos e estruturas de produção representam
investimentos; porque não há como dissociar a interdependência que reside nas
relações sociais. Por isso, não faz sentido algum que se mantenham vigentes benefícios
e privilégios para alguns em detrimento de outros. Afinal de contas, sob um céu
de incerteza estamos todos nós.
Até que o trabalho da Saúde
Pública tenha logrado êxito na contenção dessa Pandemia; sobretudo, tendo
garantido à sobrevivência em maior número do que a letalidade, a Economia terá
que aguardar. Não passivamente ou de braços cruzados; mas, trabalhando
exaustivamente pela manutenção das condições fundamentais de sobrevivência da
população e das estruturas de produção – comércio, indústria e centros
tecnológicos.
É esse arcabouço de previdência em
tempo de crise que irá permitir a retomada lenta e gradual dos processos. A realidade
atual não permite grandes ousadias no campo das projeções de cifras e
resultados futuros. Queiram aceitar ou não, houve uma ruptura que desacelerou tudo
de uma vez e impactou severamente as cadeias produtivas; então, será imprescindível
aceitar os limites que se impuserem no pós-crise, os quais não seriam prudentes
e aceitáveis se inferir a respeito agora.
Em alguns meses, espera-se que o mundo
esteja em ponto de reconstrução, inclusive econômica. Talvez, se apresente uma
globalização dialógica capaz de imprimir nesse processo habilidades e competências
que permitam torná-lo menos sacrificante para todos. Afinal, as políticas econômicas,
até aqui vigentes, terão que se reestruturar segundo as novas demandas; lembrando
que, para isso, terão que ter iniciado essa transformação durante o período de
crise.
A verdade é que a população do
planeta estará frágil física e economicamente, em decorrência do COVID-19. A sobrevivência
em meio aos “escombros” desse processo representará uma vitória bastante
significativa. Certamente, serão tempos de análise e reflexão sobre o que realmente
significa perder. Serão tempos de novos valores, novos princípios, novas
expectativas.
Quem sabe mais próximo de
reescrever uma nova “contracultura” 1
capaz não só de resgatar o desapego ao materialismo existencialmente solitário
e egoísta do mundo; mas, devolver ao ser humano o olhar sobre o que é realmente
essencial, sem que se precise estar à beira da morte.
1 A
contracultura toma posição tendo como pano de fundo esse mal absoluto, um mal
que não é definido pelo simples fato da bomba, mas pelo ethos total da
bomba, no qual nossa política, nossa moralidade pública, nossa vida econômica e
nosso esforço intelectual acham-se atualmente inseridos com abundância de
engenhosa racionalização. Somos uma civilização sepultada num inabalável
compromisso para com o genocídio, jogando loucamente com o extermínio universal
da espécie. E com que perversidade violentamos nosso senso de humanidade para
simular, mesmo por um dia, que tal horror possa ser aceito como “normal”, como
“necessário”! - ROSZAK, T. A contracultura. São Paulo: Vozes, 1972.