Pare. Leia. Reflita.
A
duras penas...
Por
Alessandra Leles Rocha
A duras penas o brasileiro
vai descobrindo que a banalização do cotidiano está longe de ser um bom
negócio. Aquela velha história de normalizar aquilo que nada tem de normal
sempre cobra um custo alto no final. Vejamos, por exemplo, o que as chuvas
desmedidas têm provocado nos centros urbanos nacionais.
Longe de ser um país
sem recursos financeiros, técnicos ou logísticos, para justificar tamanha
negligência, quando o assunto são as intempéries do clima. Temos lastro de
conhecimento distribuído entre os melhores institutos de geociências do país,
mas...
Paira no ar a existência
de um abismo que separa a produção técnico-cientifica nacional e os gestores
públicos que deveriam fazer uso dela. Entre a responsabilidade civil que esse
desalinho promove e os custos de uma gestão eficiente, o denominador comum se
tangencia pela economia.
O fato de vivermos em
um país tropical, por si só, já seria motivo suficiente para estarmos em alerta
constante aos riscos que essa condição nos impõe. Mas não. Em nome da “barateza”,
uns e outros fecham os olhos para o uso e ocupação do solo, não promovem
saneamento básico e coleta de lixo regular em áreas de encostas; enfim... Infelizmente,
muitos pensam que ao aplicar essa “lei de descaso” estariam prejudicando apenas
aqueles a quem consideram sem direito e voz.
Só que a coisa não é
bem assim. Primeiro, porque na medida em que todos têm direitos e deveres e
pagam impostos, todos merecem o mesmo tratamento, segundo a Constituição
Federal. Segundo, porque diante das mazelas a linha imaginária que a sociedade
permite estabelecer entre seus membros desaparece como em um passe de mágica. A
enxurrada que avança veloz sobre a cidade não sabe se aqui ou ali residem ricos
ou pobres; ela, simplesmente, varre com a sua fúria natural o caminho.
E de tanto se repetir,
esses episódios terríveis vão caindo na legitimação do banal. Como se tudo
pudesse se justificar pelo prisma da própria deseducação ambiental da população
brasileira. Como se fosse o descuido desta com o seu lixo, com o desmatamento,
com a poluição das águas,... o grande e único responsável por esse processo. Mas
esse pensamento, esse discurso, ele tem origem no cansaço da ineficiência proposital
dos gestores que se arrasta ao longo dos séculos. No entanto, o resultado disso
é que a população termina por se abster de dar aos grandes responsáveis à
dimensão desse dolo.
Afinal, não cabe
diretamente à população coletar o lixo, onde nem sequer o serviço acontece
regularmente; ou, resolver questões de planejamento urbano, de modo a evitar a
ocupação irregular em áreas de morros e encostas; ou, melhorar os serviços de
mobilidade urbana para que possa viver em áreas mais seguras, sem prejuízo no
deslocamento;... Portanto, dizer que as coisas são como são é muito simplista.
A verdade que, talvez,
muitos não queiram admitir é essa: estamos todos, literalmente, no mesmo barco.
Quando as águas caem, elas caem para todos. Quando os ventos sopram, eles
sopram para todos. Quando o fogo queima, ele queima para todos. Quando a neve cai,
ela cai para todos.
A natureza na sua
fúria é bastante igualitária, ela não faz distinção disso ou daquilo. É como a
fábula de Esopo 1, “na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um
problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se de que
quando há uma ratoeira na casa, toda a fazenda corre risco. O problema de um é
um problema de todos”.