Para você, qual é o peso da experiência na hora de suas escolhas?!
Para você,
qual é o peso da experiência na hora de suas escolhas?!
Por
Alessandra Leles Rocha
A universalização do voto no
Brasil foi um processo histórico longo e gradual, consolidado definitivamente
apenas com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Ao longo dos séculos,
o direito de participar das escolhas políticas do país deixou de ser um
privilégio restrito as elites econômicas e masculinas para se tornar um direito
garantido a todos os cidadãos, independentemente de renda, gênero ou nível de
instrução.
Mas, a pergunta que sempre me
faço é se o exercício desse direito está, de fato, respaldado por um
entendimento pleno a respeito da força de certos parâmetros para essa escolha.
Porque a percepção da realidade se mostra exatamente contrária, dado um histórico
de tutela e de controle por parte das elites que não permitiu um amadurecimento
real sobre o impacto do voto em relação à completude da cidadania.
E um dos aspectos que me chama bastante
atenção deriva do desconhecimento em torno do papel dos 3 Poderes da República –
Executivo, Legislativo e Judiciário. O que leva a uma flagrante distorção
decisória em relação ao Executivo e ao Legislativo, que são poderes constituídos
a partir da escolha político-partidária representativa. Uma parcela
significativa da sociedade brasileira não compreende a existência da
necessidade dialógica entre esses poderes para a satisfação das demandas e
anseios populares, por exemplo. Votam em um contexto político-partidário para o
Legislativo e outro diametralmente oposto para o executivo.
Não compreendem que nenhum Presidente,
Governador ou Prefeito consegue governar sozinho. Para aprovar leis e
orçamentos, o Poder Executivo é constitucionalmente obrigado a dialogar e
construir maiorias com o Poder Legislativo. Por isso, quando o eleitorado elege
um Executivo de uma ideologia e um Legislativo de outra, o governante é forçado
a ceder em suas promessas de campanha para conseguir o apoio do parlamento, o
que muitas vezes é interpretado pela população como fisiologismo ou traição
ideológica.
Infelizmente, no Brasil, o voto
frequentemente se baseia na personalidade dos candidatos e não nos programas
dos partidos, algo que faz com que o eleitor vote em um candidato à presidência
pelo seu discurso e, ao mesmo tempo, escolha deputados de espectros opostos por
motivos locais ou clientelistas. E essa desconexão entre o voto para o Poder
Executivo (Presidente) e o Poder Legislativo (Deputados e Senadores) gera
impactos profundos e, muitas vezes, negativos para a própria estabilidade
democrática.
Mas, não bastasse isso, a existência
de candidatos oriundos do Legislativo concorrendo a uma vaga no Executivo,
também, faz pensar. Ora, muitos indivíduos costumam dedicar anos de sua vida
pública ao Legislativo antes de se colocarem a concorrer ao Executivo, acontece
que essa experiência não lhes talha exatamente para tal empreitada. Por quê? Bem,
é fácil compreender. O Poder Legislativo e o Poder Executivo exigem
habilidades, rotinas e mentalidades completamente diferentes.
Enquanto o Legislativo é o
ambiente da negociação, do debate e da representação de nichos sociais,
comumente conhecidas como “bancadas”, o Executivo é o espaço da gestão
pragmática, da tomada de decisão solitária e da responsabilidade direta sobre
os serviços públicos e o bem-estar da população.
Além disso, no Legislativo o
poder é diluído. Um parlamentar, seja ele (a) Deputado (a) ou Senador (a) é um
(a) entre dezenas ou centenas. O sucesso depende da capacidade de articular,
ceder, criar consensos e aprovar textos coletivos, de modo que o foco está no
processo e na palavra. Enquanto no Executivo o poder é centralizado e
hierárquico. O governante, seja ele (a) Prefeito (a), Governador (a) ou
Presidente (a), é o (a) único (a) responsável final. Nesse sentido, ele (a)
precisa decidir de forma rápida, muitas vezes sem consenso, e arcar sozinho com
o ônus político e jurídico da escolha. Portanto, o foco está no resultado
prático.
No Legislativo, o trabalho é
analítico, retórico e fiscalizador, ou seja, o parlamentar aponta problemas,
propõe leis e critica o governo, mas raramente lida com a implementação real de
políticas públicas. Já no caso do Executivo, o papel é administrar uma máquina
burocrática gigantesca. Isso envolve gerenciar milhares de servidores, gerir
orçamentos engessados, lidar com licitações complexas, responder a órgãos de
controle, como os Tribunais de Contas, e garantir que hospitais, escolas e demais
serviços essenciais funcionem diariamente.
Isso acontece em razão de que no
Legislativo, um (a) deputado (a) ou senador (a) pode se destacar e fazer
carreira defendendo uma única pauta como, por exemplo, o meio ambiente, a segurança,
a educação ou o interesse de uma região específica. De modo que eles (as)
respondem apenas às suas bases eleitorais. No Executivo, o governante não pode
escolher pautas. Ele precisa governar para todos, equilibrando demandas
conflitantes de direitos sociais, de infraestrutura e de economia ao mesmo
tempo, mesmo aquelas com as quais não tem afinidade.
E em tempos de crises, enquanto o
Legislativo, resolve as questões por meio de debates, comissões de inquérito
(CPIs) ou discursos na tribuna, de maneira lenta e gradual, o Executivo é
obrigado a lidar com os problemas práticos, imprevisíveis e de impacto imediato,
tais como desastres naturais, greves de serviços essenciais, colapsos
financeiros, de maneira objetiva e rápida. O governante precisa agir em horas,
sob intensa pressão pública, e qualquer erro de execução gera consequências
diretas na vida dos cidadãos.
Por isso, a ideia de transição do
poder Legislativo para o Executivo falha quando o político tenta governar um Município,
um Estado ou um país usando a mesma dinâmica de negociação e discurso que usava
nos plenários. A teoria na pratica é bem diferente. Inclusive, se ele (a) tenta
disputar contra oponentes que já têm experiência no Executivo isso fica evidente;
pois, há uma carência flagrante quanto ao que mostrar de concreto em cada área,
tendo em vista que ele (a) não dispõe dessa vivência. Deixando claro que a
escolha do eleitor, nesse caso, poderia significar trocar o certo pelo
duvidoso.
Ora, quando o assunto é sério e
pode implicar em consequências desastrosas ou letais, a experiência fala mais
alto. O peso da experiência em uma determinada função significa o impacto
direto e o valor que o histórico prático de um (a) político (a) traz para a
execução de tarefas e a resolução de problemas. A bagagem de aprendizados,
erros superados e maturidade profissional acumulados ao longo desse tempo,
representam um diferencial importante.
O (a) político (a) experiente já
enfrentou cenários semelhantes antes; por isso, ele (a) consegue prever as
consequências de uma escolha e decidir com mais segurança, economizando tempo e
recursos. Quando surge um imprevisto, quem tem experiência não entra em pânico.
Essa pessoa já desenvolveu uma biblioteca mental de soluções e sabe exatamente
qual ferramenta ou estratégia usar para conter danos.
Além disso, a prática constante
transforma processos burocráticos em uma espécie de intuição afiada, de modo
que o indivíduo consegue antecipar tendências, gargalos ou riscos antes mesmo
que eles se materializem em dados. Saber o caminho das pedras elimina o
desperdício de energia, fazendo com que o trabalho seja feito com maior foco na
qualidade e menor índice para refazer. O que representa a possibilidade de
elevar o nível da equipe ao seu redor, pois essa pessoa sabe como orientar os
mais jovens e transmitir conhecimento de forma prática.
Por essas e outras é que o peso
da experiência não é apenas o tempo de casa ou os anos no currículo, mas sim a
sabedoria acumulada para aplicar o conhecimento certo, na hora certa, do jeito
mais eficiente. Na gestão de um país complexo como o Brasil, essa relação se
manifesta na transição da política tradicional para uma governança de alto
impacto, onde a sabedoria prática é o divisor de águas entre o desenvolvimento
e a estagnação. para gerir o Brasil, os anos de vida pública só tem valor se
transformado em pragmatismo.
Afinal, o sucesso da liderança é saber usar o
conhecimento certo, na hora certa, do jeito mais eficiente para proteger o
interesse nacional. No Brasil de hoje está claro que a soberania não se grita,
se exerce. Contra a ingerência internacional, o melhor escudo não é o confronto
direto e barulhento, mas a aplicação cirúrgica, firme e inteligente do peso
político e das riquezas que o país possui.
