Na era do fogo é preciso desconfiar

Na era do fogo é preciso desconfiar

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Olhar para a realidade é sempre um impulso para a reflexão. Foi assim que, de repente, lembrei-me do poema de Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta alemão do século XX, que diz: “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. / E examinai, sobretudo, o que parece habitual. / Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”.

Por que razão tal lembrança? Bem, o texto de Brecht serve como uma ferramenta analítica e um manifesto político contra a alienação e a resignação diante de crises provocadas pela ação humana intencional. E por mais que uns e outros, por aí, estejam tentando “bancar a egípcia” e fingir que nada de anormal está acontecendo, a verdade é que está. Haja vista o número de incêndios repentinos que já destruíram espaços universitários 1, igreja 2, teatro 3, ambulâncias 4.

Espaços esses ligados a assuntos importantes em plena campanha eleitoral, tais como Educação, Religião, Cultura e Saúde.   De modo que não se pode banalizar, trivializar. É preciso apurar, investigar; pois, tamanha “coincidência” não parece habitual. Há quatro dias eu postei uma outra reflexão, cujo título é “Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, ‘Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo’” 5, dissecando o papel do fogo como combustível da guerra, do conflito, da dominação, da exploração e da aculturação.

Havemos de concordar que há sim uma relação entre o poema de Bertolt Brecht e a célebre frase do poeta romano Horácio, na medida em que ambos apontam para o senso de corresponsabilidade social e da necessidade de ação coletiva. Tais obras rejeitam a passividade diante da injustiça e do sofrimento alheio, alertando que o individualismo é uma ilusão perigosa.

Enquanto Horácio avisa que a tragédia do outro não nos é alheia, que ignorar o problema do vizinho por achar que estamos seguros é um erro estratégico e moral, pois o perigo inevitavelmente se espalhará, Brecht insiste que as injustiças do mundo não são leis naturais. Na verdade, elas são criadas por homens e, portanto, podem ser mudadas por homens, razão pela qual ele convoca o leitor a não aceitar o cruel e o injusto como coisas normais ou inevitáveis.

Sem contar que há um ponto fundamental, no contexto desses incêndios no Brasil, que merece a atenção de todos os cidadãos: a destruição de patrimônio público. O fogo não queimou só as estruturas, os prédios, os equipamentos, ... Queimou recursos públicos também. Portanto, tributos pagos pelos cidadãos e pelas empresas, além de outras fontes de arrecadação do Estado, para financiar as necessidades da sociedade e manter a máquina administrativa. Esse recurso que foi literalmente transformado em cinzas deixa, então, de gerar o retorno social esperado.

Para que os serviços voltem a funcionar, o Estado precisará gastar novamente. Esse dinheiro que será usado para reconstruir o que já existia deixará de ser investido em novas demandas, como saneamento básico, melhorias na saúde, expansão da educação ou segurança. Em termos econômicos, Em termos econômicos, esses incêndios geram um ciclo destrutivo de perda de eficiência fiscal.

Nesse cenário, a sociedade acaba pagando duas vezes pelo mesmo bem público, ou seja, uma para construí-lo e outra para recuperá-lo após a tragédia. Além disso, há o custo invisível da paralisação dos serviços durante o período de reconstrução, o que prejudica diretamente a produtividade e o bem-estar da população. Daí a necessidade de pensar que os incêndios criminosos ou agravados por omissão destroem estruturas estatais, de modo que o prejuízo financeiro e social é direto para o bolso do contribuinte.

Portanto, "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo"! Certas ações aparentemente espontâneas na política são, na verdade, minuciosamente calculadas. É preciso olhar além da superfície das promessas e dos acontecimentos cotidianos durante o período de disputa pelo poder. O que parece coincidência muitas vezes é, na verdade, conveniência de interesses escusos.