Debates que não debatem
Debates
que não debatem
Por Alessandra
Leles Rocha
Essa história de se querer
ajustar o significado das palavras aos interesses pessoais nunca dá certo.
Vejamos o caso do debate político. Bem, o ponto fundamental desse tipo de
debate é ser um encontro formal entre candidatos a um cargo público, como
presidente, governador ou prefeito, para apresentar propostas, confrontar
ideias, responder a perguntas e debater temas de interesse da sociedade.
Então, na década de 1970, eis que
surge no Brasil o primeiro debate político transmitido por uma emissora de TV. Considerado na ocasião um modelo
interessante para a sociedade, com o tempo ele passou a ser transmitido por
emissoras de TV, rádio ou internet, seguindo regras rígidas combinadas
previamente entre os partidos e os veículos de comunicação.
Acontece que nem tudo são flores nessa
proposta. Primeiro, porque os veículos de comunicação expressam seus próprios interesses
e tendências político-partidárias e isso não desaparece na pseudo-isenção que
tentam imprimir aos debates.
Segundo, porque na esteira dessa
realidade, os próprios mediadores, jornalistas escolhidos pelo veículo de
comunicação, são colocados de maneira submissa aos critérios preestabelecidos, não
podendo intervir de maneira mais incisiva quanto aos excessos e as inverdades
manifestas pelos candidatos, inclusive, em razão da falta de checagem das
informações em tempo real.
Por fim, os debates se
transformaram cada vez mais em produtos de mídia. O tempo de TV sempre foi uma commodity
cara, de modo que para patrocinar ou divulgar sua marca os anunciantes pagam
valores expressivos em troca de um retorno massivo do público. E aí, caro (a)
leitor (a), o design dos debates passou a se ajustar aos indicadores que despertam
maior adesão e audiência do público.
Foi nesse ponto, então, que ocorreu
um desvirtuamento do propósito dos debates, ou seja, apresentar propostas,
confrontar ideias, responder a perguntas e debater temas de interesse da
sociedade cedeu lugar à beligerância em diferentes formas.
Em busca de consolidar um amplo
engajamento do telespectador, os veículos de comunicação se permitiram criar verdadeiras
arenas de hostilidade, de insulto, de violência verbal, de desinformação, para
que no fim das contas houvesse um aumento do radicalismo e da polarização.
Assim, o candidato que disponha
de uma plataforma de ideias a ser apresentada, tem o seu objetivo frustrado
diante do caos e da enrolação estabelecida por esse modelo.
Por outro lado, aquele que não
quer, não tem ou não pode apresentar suas ideias, em razão da fragilidade ou da
impopularidade delas, surfa na onda ao longo de aproximadamente duas horas,
deixando o (a) eleitor (a) sem quaisquer esclarecimentos a respeito das suas
pretensões de governança.
Só resta dizer que tudo isso é
lastimável! Ao contrário do que deveria ser, esse tipo de estratégia eleitoral
acaba prestando um imenso desserviço à Democracia.
A natureza do debate
político-partidário é fundamentalmente construir um diálogo com o (a) eleitor
(a), no sentido de trazer-lhe clareza e resposta aos seus anseios e
expectativas, não fazer daquelas horas um circo patético, constrangedor e sem
graça, que não diz nada para coisa nenhuma.
De fato, durante muito tempo, a
política brasileira esteve às voltas com um padrão eleitoral de promessas vãs. Haja
vista o modelo de comícios em que os candidatos subiam aos palanques e
debulhavam seus discursos floreados de ideias anos luz de distância do que
realmente a população carecia.
Algo muito bem retratado, em
1973, pela novela O Bem Amado, escrita por Dias Gomes, em que através da
personagem Odorico Paraguaçu, prefeito da cidade fictícia de Sucupira, a novela
expunha as entranhas do populismo, do clientelismo e do coronelismo regional.
Tanto que a obra não apenas
retratou o Brasil de sua época, mas deixou um manual de sobrevivência cívica
que ensinou gerações de brasileiros (as) a cobrar por uma democracia mais
madura e menos sucupirana.
Em plena contemporaneidade, a
relação entre candidatos (as) e eleitores (as) torna essa questão ainda mais
pulsante. Afinal de contas, a realidade factual está exposta pelas telas ao
alcance das mãos de milhões de pessoas.
Os fatos, os acontecimentos
cotidianos, seja aqui, ali ou acolá são compartilhados em tempo real. O que
permite ao cidadão exercitar a sua autorreflexão, os seus questionamentos, as
suas intervenções.
O que significa que qualquer um
de nós está mais imerso na política do que possa imaginar, dada a realidade tecnológica
contemporânea. Apesar do individualismo, do egoísmo, do narcisismo, das bolhas
digitais, ainda assim, o mundo virtual desfez as fronteiras e aproximou as
ideias.
Lenta e gradualmente, estamos
conseguindo identificar o que nos une, o que nos afeta, o que nos incomoda,
passando a exercer um grau de cobrança das instituições, das representações
político-partidárias, mais direta. O que revela a dissociação existente entre o
modelo de debates vigente e as expectativas do cidadão.
Bem, se a tecnologia empoderou os
indivíduos para cobrar mudanças, deixando evidente que a política tradicional sob
muitos aspectos está desatualizada frente às novas demandas sociais, os debates
precisam ser espaços de resposta clara e contundente ao eleitorado.
Se é para fazer debates, então,
que se cumpra o seu objetivo fundamental. Performances caricatas e vazias não
atraem mais o público, que na atualidade já dispõe de milhares de outras opções
de “entretenimento” de melhor qualidade.
Enquanto as mudanças a respeito dos debates não chegam, se você almeja por um líder para o seu país, seu estado ou seu município, essa figura deve estar consciente de que “O desafio da liderança é ser forte, mas não rude; ser gentil, mas não fraco; ser ousado, mas não um valentão; ser atencioso, mas não preguiçoso; ser humilde, mas não tímido; ser orgulhoso, mas não arrogante; ter humor, mas sem loucura” (Jim Rohn - empreendedor, autor e palestrante motivacional estadunidense). Afinal, a “Liderança é sobre fazer os outros melhores como resultado da sua presença e garantir que esse impacto dure na sua ausência” (Sheryl Sandberg - executiva de tecnologia americana, filantropa e escritora estadunidense).
