A República sob nuvens de conspiração


A República sob nuvens de conspiração

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Particularmente, considero a conspiração um modo de apequenar a significância humana. Afinal, conspirar significa tramar ações secretas e planejadas em conjunto com outras pessoas, geralmente contra alguém que se considera oponente ou rival, com o objetivo de causar seu fracasso, derrubada ou morte. De modo que não há nada de positivo, de edificante ou de altruísta em ser um conspirador.

Conspirar representa, então, a falha absoluta da civilidade, da disposição ao diálogo, à busca de consenso, de equilíbrio. É o chamado tudo ou nada, que no fim das contas não costuma chegar a bom termo. Simplesmente, porque a conspiração corrói os pilares fundamentais da convivência humana, substituindo a transparência e a cooperação pelo segredo e pelo conflito.

Olhando atentamente a realidade brasileira não temos mais quaisquer duvidas de que o país se tornou alvo de uma rede conspiratória, a qual se estabelece tanto dentro do território quanto fora. Acontece que as teorias da conspiração e os planos conspiratórios reais funcionam como ferramentas estratégicas para centralizar o poder de quem o busca e/ou justificar a influência de quem teme perdê-lo.

Desse modo passam a desenvolver narrativas sobre inimigos comuns, justificativas para colocar em prática medidas extremas, ideias para preencher supostas lacunas de controle, reduzir a complexidade de situações críticas. Até que consigam promover a erosão da confiança institucional. Veja, conspirações minam a credibilidade da imprensa, da ciência e do sistema eleitoral, até que essas estruturas entrem em colapso, abrindo um vácuo de poder que pode ser ocupado por novos atores que prometem destruir o sistema corrompido.

É preciso resgatar na memoria histórica nacional o quanto as conspirações estiveram presentes. No período colonial e imperial, entre os séculos XVIII e XIX, houve a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798), a Conspiração dos Suassunas (1801) e as articulações da Independência (1822) e da República (1889). No período republicano, Século XX, ocorreram as conspirações Tenentistas, na década de 1920, o Plano Cohen (1937), e a articulação do Golpe de 1964.

Sem contar, o fato de que durante os 21 anos da ditadura militar, entre 1964 e1985, existiram micro golpes caracterizados por divisões internas e tentativas de facções mais radicais de impor força contra as alas moderadas dos militares.

Até que, em pleno século XXI, a República Federativa do Brasil assistiu a mais infame de todas as conspirações, que culminou no episódio mais triste e vergonhoso da história brasileira, o 08 de janeiro de 2023, marcado pelas invasões e depredações das sedes dos Três Poderes, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília, por manifestantes que contestavam o resultado das eleições presidenciais de 2022.

O episódio gerou forte reação das instituições brasileiras e da comunidade internacional, sendo amplamente repudiado por autoridades de diversos espectros políticos, que o classificaram como um ataque à democracia e ao patrimônio público. No entanto, a partir das investigações conduzidas pelos órgãos de segurança e pelo Judiciário, as quais resultaram na identificação, prisão e condenação de centenas de envolvidos nos atos de vandalismo, descobriu-se uma trama conspiratória que vinha sendo fiada bem antes desse ocorrido.

Sim, o 08 de janeiro de 2023, foi o ápice de uma articulação anterior, envolvendo financiadores, núcleos de planejamento e minutas golpistas com o objetivo de reverter o resultado das eleições de 2022. Contudo, apesar das punições, não se conseguiu impedir que houvesse uma continuidade conspiratória fundamentada em aliança internacional com a ultradireita estadunidense.

Existe uma estratégia de guerra híbrida e de pressões internacionais coordenadas por aliados da ala conservadora e da ultradireita nos Estados Unidos, pautadas por relatórios e pressões externas que visam deslegitimar as decisões do Judiciário brasileiro, reabilitar figuras inelegíveis e anistiar os condenados pelos atos de 2023. Inclusive, investigações específicas, como as que miram a atuação de parlamentares brasileiros no exterior, buscam apurar se há financiamento ou suporte logístico estrangeiro nessas movimentações.

Então, faltando três dias para o segundo turno do pleito eleitoral para Presidente da República, vem à tona a informação de que alguns militares, incluindo aqueles estão presos pelo 08 de janeiro de 2023, estão se organizando de maneira conspiratória para conseguir uma anistia geral a todos os condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pela tentativa de golpe de Estado 1. Mas, não somente eles estão conspirando. Outro preso pela tentativa de golpe conspira para instrumentalizar a Polícia Rodoviária Federal (PRF) em caso de vitória do candidato da ultradireita 2.   

Bem, o grande ponto de análise nas conspirações nacionais é que elas, no frigir dos ovos, tendem a não alcançar o sucesso da sua idealização. Conspirações sempre são obrigadas a enfrentar a força imperiosa das conjunturas, que desalinham a perfeição das idealizações.  De modo que elas falham em sua execução perfeita porque dependem do controle absoluto de variáveis que são, por natureza, incontroláveis.

Esse hiato entre o plano idealizado e a realidade prática pode se dar por uma contingência histórica. Ora, fatos imprevistos mudam o cenário de um dia para o outro, invalidando o planejamento estratégico. Também, as conspirações exigem sigilo absoluto. E quanto mais pessoas se envolvem, maior é a probabilidade de delações premiadas, arrependimentos de última hora ou vazamentos “acidentais”. Por fim, o status quo ou as forças vigentes não são estáticos. O que significa que diante de uma ameaça iminente, as estruturas de poder reagem, adaptam-se e frequentemente neutralizam o movimento antes que ele atinja seu objetivo final.

Por isso, o plano que parece perfeito no papel quase nunca sobrevive ao primeiro contato com a realidade das ruas e das forças institucionais. Basta visitar as páginas da história brasileira para ver os grandes fracassos conspiratórios que colapsaram na desonra quando a verdade veio à tona. Foram eles a Inconfidência Mineira (1789), as cartas falsas de Artur Bernardes (1921), o Plano Cohen (1937) e a renúncia de Jânio Quadros (1961).

Não é sem razão que, todas as vezes em que me deparo com episódios conspiratórios, não posso deixar de pensar na figura emblemática e controversa de Carlos Lacerda, jornalista, escritor, empresário e político brasileiro. Afinal, ele atuou como um dos principais desestabilizadores da República de 1946. Suas campanhas midiáticas e discursos inflamados pela União Democrática Nacional (UDN) contra Getúlio Vargas, que culminaram no suicídio do presidente em 1954, depois contra Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, são vistos como conspirações golpistas que pavimentaram o caminho para o Golpe Militar de 1964.

Segundo alguns historiadores e biógrafos, Lacerda agia movido por um profundo sentimento anticomunista e de combate à corrupção da época. Eles destacam que, ao perceber o caráter ditatorial e permanente do regime militar, Lacerda mudou de postura e tentou restaurar a democracia ao criar a Frente Ampla em 1966, aliando-se aos seus antigos adversários Juscelino Kubitschek e João Goulart.

No entanto, como consequência de sua oposição ao regime que ajudara a instituir, Carlos Lacerda teve seus direitos políticos cassados em 1968 pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5), foi brevemente preso e permaneceu afastado da vida pública até sua morte em 1977. A intensa veia conspiratória e o estilo agressivo de fazer política de Carlos Lacerda foram decisivos para o seu isolamento político e o seu fim melancólico. A mesma engrenagem golpista que ele ajudou a criar acabou por devorá-lo.

Feitas essas breves considerações, me parece claro e necessário que medidas sejam tomadas diante das revelações gravíssimas sobre a existência de uma nuvem conspiratória nos céus do Brasil.

Se ronda uma permissividade institucional que oferece a certos indivíduos, já julgados e condenados por tentativa de Golpe de Estado, facilidades para conspirar novamente contra o país, é sinal de que condutas urgentes precisam ser efetivadas em nome da preservação da Democracia, do Estado de Direito e da Soberania nacional.  

2 https://iclnoticias.com.br/preso-por-tentativa-de-golpe-silvinei-vasques/