VINGANÇA
VINGANÇA
Por
Alessandra Leles Rocha
Não posso afirmar que os seres humanos
sejam movidos por vingança; mas, entre muitos se vê claramente a atuação desse
sentimento. Isso não é de hoje, de agora. Sim, a historicidade é marcada por episódios
famosos de vingança.
De modo que ela frequentemente
surge quando os sistemas formais de justiça parecem falhar ou contrariam as
pretensões de certos indivíduos, ou quando o orgulho e a dor superam a razão.
No entanto, muitos se esquecem,
ou preferem não ver, que a vingança não só é incapaz de cumprir o papel apaziguador
do espírito e de devolver ao indivíduo o discernimento racional, como não acaba
em bom termo.
Inclusive, grandes pensadores e a
própria literatura clássica cansaram de demonstrar que o sucesso ou a satisfação
decorrente da vingança é, quase sempre, a ruína de todos os envolvidos. A
verdadeira justiça e o equilíbrio espiritual costumam acontecer pelo
distanciamento e pela superação, não pelo revide.
Contudo, o calor raivoso das
paixões mundanas acaba operando de maneira mais intensa e beligerante, ainda
que, em pleno século XXI. Haja vista os acontecimentos recentes que tomaram de súbito
os meios de comunicação e de informação no Brasil, nos últimos dias.
A análise que recorta e atravessa
os acontecimentos demonstra claramente como a vingança se estabelece como roteiro.
Assim, para entender o agora é preciso traçar uma linha do tempo.
As elites brasileiras e o
espectro político-partidário de direita jamais estiveram confortáveis e
satisfeitos diante da presença das alas progressistas no poder.
Quando ocorreu o processo de redemocratização
nacional, ainda na década de 1980, muitos se mostraram contrários, reafirmando
publicamente o seu apoio à manutenção do regime militar que já durava mais de
20 anos no país.
Acontece que a força das
conjunturas sempre impera, e as mudanças de efeito globais, desenharam um novo
rumo para a realidade brasileira contrariando a vontade dos matizes direitistas
nacionais.
Naquele momento, o cenário
internacional caminhava para o fim da Guerra Fria. O governo dos Estados
Unidos, que antes apoiava ditaduras anticomunistas na América Latina, passou a
pressionar pela redemocratização do continente, alinhando-se à onda global de
transições democráticas, conhecida como terceira onda da democratização.
E de mal-estar em mal-estar, essa
gente foi tolerando e arquitetando uma virada de mesa na história brasileira. Que
chegou pelo impeachment de Dilma Rousseff. Sim, o processo funcionou como uma
operação ofensiva de forças conservadoras e liberais contra o ciclo de governos
progressistas, abrindo caminho para a construção de uma nova direita nacional.
A fim de desgastar cada vez mais os
discursos progressistas e desestabilizar o centro político tradicional, o impeachment
pavimentou a rampa para a posterior ascensão eleitoral da extrema-direita no
país. Vieram, então, a Operação Lava Jato e a prisão de Lula, que serviu como um
impeditivo para que ele não concorresse a um novo pleito.
Assim, a extrema-direita vence as
eleições de 2018. Aliás, durante a campanha eleitoral, a fala de um dos filhos
do candidato que foi eleito causou estranheza. Segundo ele, “Para fechar o Supremo
Tribunal Federal (STF) basta um soldado em um cabo”. Deixando transparecer
como a aura do regime militar não havia se dissipado por completo após a
redemocratização.
Mas,
não é só isso. Certos assunto indigestos e mal explicados que já rondavam a
família do presidente eleito, não pararam de
circular após o seu governo em curso.
De modo que, em 22 de abril de
2020, em uma reunião ministerial no Palácio do Planalto, o ex-presidente cobrou
de forma incisiva relatórios de inteligência e justificou a necessidade de
interferir na estrutura policial para blindar seus familiares e aliados.
Foi o estopim para a demissão do ministro
da Justiça e Segurança Pública, dois dias depois. Quem assume o cargo, foi um
advogado amigo e de confiança do ex-presidente, e que por sua indicação chegou
ao Supremo Tribunal Federal (STF), em dezembro de 2021.
No entanto, fatos que passavam à
margem do conhecimento público já estavam sendo arquitetados. Uma reunião ministerial,
em 5 de julho de 2022. Reunião com embaixadores estrangeiros, em 18 de julho de
2022. Este evento, inclusive, fez com que o ex-presidente fosse declarado
inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os Atos de 7 de Setembro, em
2022. Os bloqueios de rodovias. Os acampamentos nas portas dos quartéis. O Plano
de assassinato de autoridades, conhecido como "Punhal Verde Amarelo",
em 9 de novembro de 2022. As Minutas golpistas. A recusa pública do
ex-presidente em declarar a derrota eleitoral. A Noite do Quebra-Quebra em
Brasília, em 12 de dezembro de 2022. O atentado a bomba frustrado, perto do
Aeroporto de Brasília, em 24 de dezembro de 2022. A fuga do ex-presidente para
os Estados Unidos, em 30 de dezembro de 2022.
Diante de toda essa manifestação
de desinformação, tolerância com acampamentos radicais, complacência de setores
da segurança e minutas golpistas pavimentou-se diretamente um caminho para que,
no dia 8 de janeiro de 2023, ocorressem os ataques contra as sedes dos Três
Poderes em Brasília.
Os quais geraram desdobramentos
imediatos e de longo prazo para as instituições e para o cenário político
brasileiro. O STF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) iniciaram uma
grande inovação jurídica para responsabilizar executores, financiadores e
mentores dos atos.
Pela primeira vez na história
brasileira, elementos ligados à direita, em seus mais diferentes matizes, foram presos, investigados, responsabilizados. Incluindo, nesse ineditismo, o ex-Presidente da República e os generais das Forças Armadas envolvidos. Foram condenados criminalmente por
planejarem uma tentativa de Golpe de Estado para impedir a posse do presidente
eleito.
Desde, então, a semente da vingança
foi replantada. Começando, pelo fato de que dentro do Congresso Nacional, o
espectro político de direita, em todos os seus matizes, vem debatendo intensamente
projetos de lei que visam alterar o cálculo de penas ou conceder anistia aos
envolvidos.
Acontece que algo muito maior e
estarrecedor estava por vir, o Caso do Banco Master. As investigações da PF têm
trazido à tona um escândalo que abalou os pilares de sustentação das elites
brasileiras e do espectro político-partidário de direita, em todos os espaços do
poder nacional.
Políticos. Empresários. Operadores
financeiros. Templos religiosos. Influenciadores. ... O que se torna bastante indigesto
e constrangedor em pleno ano eleitoral, quando muita gente está em busca de
garantir prerrogativa de foro, como um mecanismo de proteção jurídica.
Mostrando como o poder político e
o econômico se entrelaçam para manter a impunidade ou o status quo. Porque se
eleitos, o foro por prerrogativa de função pode paralisar as investigações em
andamento na primeira instância, já que o processo precisa ser enviado ao
tribunal superior competente, atrasando o julgamento.
Por isso, a vingança se configura
pela promoção do caos e da tensão dentro do STF. Apesar das investigações
conduzidas pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero revelarem que
o impacto e as conexões do Banco Master extrapolam fronteiras político- ideológicas,
a descoberta dos malfeitos do banqueiro poderoso, agora preso, é desconfortante
para muita gente da direita.
Daí a razão de quererem se vingar
de quem os descobriu com “a boca na botija”. A Justiça não pode saber. A
Justiça não pode atuar. A Justiça não pode trazer à tona a verdade.
Especialmente, a verdade que as
elites brasileiras e o espectro político-partidário de direita não têm projeto
nenhum para o país, nunca tiveram. Que seus interesses pessoais, privados,
sempre estarão à frente de tudo, como prioridade absoluta.
A reflexão que fica, nesse caso,
vem das palavras de George Bernard Shaw, dramaturgo e romancista irlandês, “O
progresso é impossível sem mudança; e aqueles que não conseguem mudar as suas
mentes não conseguem mudar nada”.
Afinal, o progresso pleno do país está sendo freado pela permanência de preferências, de práxis e de preconceitos herdados do período colonial. Sem mudar essa mente o progresso democrático fica travado.
