LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.
LACRAÇÃO,
LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.
Por Alessandra
Leles Rocha
O pó de pirlimpimpim contemporâneo
parece ser LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. Só que não. Basta um mínimo de atenção aos veículos
de informação para perceber que, além desse tripé ser totalmente incapaz de
resolver os problemas do mundo, incluindo os seus, ele tem um potencial
devastador de intensificá-los.
Infelizmente, a vida não é feita
de soluções rápidas e superficiais. Atalhos nunca levam ninguém ao que se espera.
Por isso, o cenário da monetização digital, que significa transformar conteúdo,
tráfego, audiência ou presença na internet em receita financeira, não vai promover
uma alteração substancial na realidade contemporânea.
Enquanto chuvas torrenciais
assolam o território japonês, incêndios florestais arrasam com a Europa e os
EUA, sem que nada de efetivo possa ser feito para mudar o cenário. Recentemente
houve um terremoto na Venezuela, agora, outro aconteceu na Colômbia. Cientistas
já afirmam que o super El Niño trará fome e escassez para grande parte do
planeta nos próximos meses. Portanto, a dinâmica geoambiental do planeta se
mostra alterada, colocando as incertezas no topo da lista.
Gostemos ou não, tudo isso aponta
para um processo de intensa desconstrução e reconstrução, sem fim. Por quê? Porque
a contemporaneidade se esqueceu de que o ser humano é sempre o centro das ações
e das preocupações.
Portanto, na medida em que a
mercantilização e a monetização social assumiram o controle do cotidiano houve
um inevitável apagamento e invisibilização dos indivíduos. Suas necessidades, carências,
desafios, foram deixados de lado, à mercê da própria sorte.
Contudo, o ato de transformar
direitos, relações ou bens sociais em produtos com preço de mercado ou de gerar
ganho financeiro a partir de uma audiência, de uma rede de contatos ou do engajamento
digital, não faz evaporar dos veículos de comunicação e de informação as estatísticas
e os problemas socioeconômicos e ambientais que recortam a realidade contemporânea.
O tripé dos três L citados acima é,
portanto, somente uma cortina de fumaça para tentar esconder a ausência total de
uma solução, de um plano para resolver as crises que afetam milhões de seres
humanos todos os dias. Sabe a velha
história do cachorro correndo atrás do próprio rabo? É exatamente isso.
Apesar de triste e constrangedor
é preciso admitir, as responsabilidades socioeconômicas e ambientais, sejam
elas simples ou complexas, quase sempre, estão a cargo de pessoas
despreparadas, carentes de competência, desprovidas de ética, que foram
alocadas em posição de poder e se apropriaram dele, apesar de totalmente
inaptas.
Aí, enquanto bilhões de pessoas
se entretém nessa corrida frenética por LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO, tentando desesperadamente
capitalizar alguns vinténs e/ou ocupar um último lugar na fila do pertencimento
social, o mundo continua girando, girando, girando ... Sem que as urgências e as
emergências socioeconômicas e ambientais sejam resolvidas.
Sem que a pirâmide social deixe
de exaltar uma base imensa e uma ínfima ponta, não deixando dúvidas de que as
desigualdades permanecem cada vez mais inabaláveis. ...
Além disso, não se pode esquecer
que o tripé dos três L tem também promovido o apogeu do ódio, para amplificar
ainda mais os rendimentos. Não entendeu? Esse ciclo gera engajamento extremo,
aumenta a visualização de conteúdos polêmicos e converte reações raivosas e
violentas em ganhos financeiros diretos para plataformas e criadores.
Por isso, com ou sem uma consciência
formada a respeito, a sociedade contemporânea marcha rumo à banalização do mal,
como já aconteceu em outros momentos da sua historicidade.
Considerando, então, que o mal
não nasce necessariamente de um ódio profundo ou perversidade demoníaca, mas da
incapacidade de pensar criticamente, esse é o grande perigo, porque qualquer
indivíduo que abdique de sua consciência e julgamento moral pode perpetuar
injustiças de forma mecânica e contínua.
Na verdade, pode estar
contribuindo, nesse exato momento, para que as cortinas de fumaça facilitem a falência
e o colapso da vida na Terra, dada a ausência de soluções para o
recrudescimento dos problemas que já vigoram há séculos.
Lembremo-nos, então, das
seguintes palavras do Chefe Seatle, líder dos povos Duwamish e Suquamish nos
EUA, “O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer
que faça a essa teia, faz a si próprio”.
Assim, a ação de um indivíduo
reverbera no todo e retorna a ele próprio. Cada ato afeta o tecido social na
sua totalidade, de modo que a ética deixa de ser apenas um dever entre humanos
e passa a incluir o ambiente e o futuro do planeta.
