Livres?!
Livres?!
Por Alessandra Leles Rocha
Esse é um assunto que exige reflexão. Liberdade ...
De ser.
Bem, esse é o direito fundamental que fala sobre a capacidade de viver de
acordo com a sua própria essência, valores e identidade, sem precisar se moldar
às expectativas, rótulos ou pressão da sociedade. Portanto, ser quem se é onde
quer que você esteja, sem precisar de máscaras sociais ou de viver em função da
aprovação alheia.
De estar.
Essa é a dimensão ligada à presença, ao pertencimento e à autonomia espacial. Ora,
todos têm o direito fundamental de ir e vir em um ambiente, transitando com
segurança, sem se sentir ameaçado ou excluído.
De viver.
Ah, esse é um aspecto muito importante. Trata-se da capacidade de fazer
escolhas autênticas sobre o próprio caminho, homologadas aos próprios valores e
princípios.
No entanto, isso está longe de significar a
ausência de regras ou a permissão para agir por impulso. Afinal, toda escolha
traz consequências, de modo que a verdadeira liberdade envolve assumir a
responsabilidade pelos seus atos, decisões e pelo rumo da própria vida, da própria
história.
De ficar.
Nada melhor do que desfrutar da autonomia emocional e da individualidade nos relacionamentos.
Assim, a liberdade de ficar representa o poder de escolha consciente para estar
com alguém por afeto real, e não por dependência, mantendo a liberdade de se
retirar quando o vínculo não for mais saudável ou compatível.
Mas, ela também traz a possibilidade de se
sentir inteiro sozinho, sem a necessidade de preencher vazios emocionais
através da aprovação constante do outro.
De permanecer. Pelo menos em tese, todos deveriam desfrutar
do direito fundamental de não ser obrigado a deixar um local, país ou relação. No
entanto, quando se olha pelas janelas do mundo contemporâneo, essa liberdade
está, cada vez mais, sendo confrontada pela globalização, pelas crises
migratórias, pelas guerras e conflitos, e pela segurança digital.
Sim, uma onda crescente de refugiados
climáticos e políticos testa a capacidade das nações de acolher e integrar
novos indivíduos, resultando muitas vezes em políticas de imigração mais
restritivas.
Por outro lado, a permanência na internet ou
em redes corporativas vem exigindo a abdicação de privacidade na troca de
serviços, ao mesmo tempo em que existe uma coleta desenfreada de dados ameaçando
a autonomia do indivíduo.
Por fim, especialmente nos grandes centros
urbanos, a liberdade de moradia é limitada pela especulação imobiliária,
dificultando o direito à cidade pela população mais vulnerável e de baixa renda.
De continuar. Será
que alguém se sente realmente livre para poder seguir em frente, recomeçar ou
manter um caminho escolhido, sem ser impedido por amarras do passado,
especificações físicas ou pressões externas?
A impressão que se tem é de que ao contrário
de uma ausência absoluta de limites ou de um estado permanente, essa liberdade
na prática se apresenta pela escolha de como reagir aos condicionamentos
biológicos, históricos e sociais que se apresentam diariamente.
De tornar-se.
Nesse contexto, ela se mostra como um espaço para a autorrealização e o
desenvolvimento contínuo, colocando o ser humano como protagonista das suas
escolhas ao longo da vida. Cada decisão, ação ou até omissão, molda a pessoa
que cada um se torna, fazendo com que a vida seja uma criação autêntica e não
um roteiro pronto. Assim, essa liberdade é o potencial que o indivíduo tem para
evoluir, ultrapassar traumas e alcançar a sua melhor versão.
De parecer.
Talvez, uma das expressões de liberdade mais comuns na contemporaneidade! Pois,
ela se refere ao direito fundamental de construir e exibir sua própria
identidade visual, corporal e estilística, livre de coerções estatais, sociais
ou de discriminações no trabalho e na sociedade. Na contemporaneidade, o corpo,
as roupas e quaisquer modificações identitárias são ferramentas de
autodeterminação e autoexpressão do indivíduo.
Entretanto, não se pode negar que ao mesmo
tempo em que a liberdade de parecer é ampla, a sociedade é fortemente
pressionada por padrões de beleza virtuais e por algoritmos. Isso faz com que,
muitas vezes, essa liberdade de parecer algo nas redes sociais se transforma em
uma nova prisão, onde a encenação de uma vida perfeita tenta substituir a
personalidade do indivíduo.
Por essas e outras é que, de repente, a
liberdade foi imersa no caos da incompreensão. A sociedade contemporânea decidiu
que não pode haver limites, condições ou restrições para o exercício da sua
liberdade, como se isso fosse possível. Por conta disso, as relações sociais se
transformaram num verdadeiro barril de pólvora.
Acontece que esse comportamento transformou a
liberdade em uma força destrutiva, que vem desconsiderando o contrato social
que garantia a segurança e o respeito mútuo na vida em sociedade. De modo que
tudo começa por essa ruptura que retirou a base da civilidade, gerando um
ambiente de instabilidade e conflitos, onde prevalece a lei do mais forte e a
desconfiança generalizada.
A partir daí, quando a liberdade irrestrita de
um indivíduo interfere diretamente no bem-estar e nos direitos do outro, ocorre
a desestruturação da igualdade de oportunidades e do respeito mútuo no contexto
social.
Algo que se reafirma a partir de discursos e
atos que antes eram repreendidos pelo pacto de civilidade e que, agora, ganham
espaço, podendo resultar em discursos de ódio, de intolerância e de crimes
contra a honra, ameaçando a segurança e a integridade; sobretudo, de grupos
vulneráveis.
Não se pode invisibilizar ou negar o fato de
que as polarizações ideológicas, sejam elas de que natureza forem, dentro do
recorte contemporâneo, têm se intensificado de uma maneira brutal, perversa e
incontrolável. Absolutamente tudo se transforma em pretexto para romper coma
civilidade e estabelecer um retorno aos primórdios da barbárie social.
A radicalização do debate público e a erosão
da urbanidade têm sido transformadas e publicadas cotidianamente em verdadeiros
campos de batalha ideológicas, que transitam tanto pelo ambiente virtual quanto
real.
Sim, porque essas ocorrências, muitas vezes
potencializadas pelas bolhas nos ambientes digitais, dificultam a construção de
consensos e o respeito à pluralidade de ideias.
Haja vista, o recente episódio, no qual um
idoso foi vítima de espancamento e ameaça, nas proximidades de sua residência,
em um bairro da zona sul carioca, cuja motivação da violência foi política e
religiosa. As agressões só cessaram após a intervenção de um transeunte que
passava pelo local e gritou para que parassem 1.
Tudo isso porque a liberdade não é absoluta e
não se confunde com ausência de regras ou autorização para violar a lei! Todos
deveriam se lembrar de que a liberdade encontra seu limite no momento em que
fere o direito de outra pessoa ou viola um bem jurídico protegido.
Aproveitando esse assunto, hoje, 15 de junho,
é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, instituído
pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006, para combater abusos
físicos, psicológicos, financeiros e o abandono, dando origem à campanha Junho
Violeta, que promove a defesa e a dignidade da população idosa.
Aliás, o Brasil é vanguardista nesse assunto,
pelo fato de que em 2003 foi promulgada a Lei n.º 10.741, que dispõe sobre o
Estatuto da Pessoa Idosa e dá outras providências 2.
Depois dessas breves considerações, só me
resta deixar as seguintes palavras de Nelson Mandela, ativista, advogado,
primeiro presidente negro da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1993, para
sua reflexão: “Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de
alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros”.
Afinal, isso significa que a liberdade exige de cada ser humano a responsabilidade, a alteridade e a construção de um ambiente social que permita não só a emancipação individual quanto a coletiva.
