Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.

Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Recentemente, recebi nos meus e-mails uma chamada para envio de artigo científico, de uma revista na área médica. Apesar da surpresa, considerando o fato de não estar diretamente ligada ao referido campo de conhecimento, verifiquei quais eram os formatos de artigo aceitos pela revista e decidi encaminhar uma comunicação curta.

Há algum tempo, instigada por algumas experiências médicas, percebi a relevância, enquanto paciente, de trazer à tona dois aspectos importantes para a reflexão dos profissionais de saúde; visto que, muito tem sido falado a respeito de uma medicina mais humanizada, ou seja, integrando o conhecimento técnico à escuta ativa, à empatia e ao respeito pela história, contexto social e necessidades emocionais do indivíduo.

Contudo, segundo o corpo de pareceristas da revista, após todos os ajustes solicitados, os artigos foram desconsiderados para a publicação.

Diante da recusa e entendendo a importância do que esses artigos traziam, resolvi “desacademizá-los” e transformá-los em um diálogo direto com outros tantos milhares de pacientes, por aí, por meio desse texto.

O objeto da primeira reflexão foi “A importância da humanização da assistência para o sucesso da comunicação médico-paciente”. Considerando o cenário da contemporaneidade, de altíssima complexidade, fluidez e interconectividade, esse foco que deveria existir em relação ao respeito às singularidades, ao comprometimento na escuta, à disposição dialógica plena, à geração de ambientes de confiança e acolhimento que valorizam o ser humano, parece um caminho difícil de ser transposto.

Por quê?  Porque a formação médica ainda se mostra resistente à integração da humanização e da valorização da subjetividade do paciente, devido ao predomínio de um modelo baseado na tecnociência para tratar e curar, desconsiderando os aspectos psicossociais e culturais do indivíduo acometido por uma dada patologia.

E isso é muito ruim, na medida em que a comunicação se torna atravessada por diversos ruídos, os quais não priorizam o acolhimento, a escuta gerenciada, a linguagem acessível, o respeito à subjetividade e à autonomia do sujeito, tornando o cuidado humanizado, na perspectiva da informação em saúde, um processo falho em seus propósitos fundamentais.

Daí a necessidade de o profissional estar disposto e apto a realizar uma escuta comprometida com a construção de vínculos, garantindo o direito à informação de forma digna, clara e objetiva, ao paciente. É preciso desconstruir a ideia de que a linguagem do médico é absoluta, sem margem para discussão ou questionamento, tendo em vista de que ele é o detentor do saber.

Aliás, não é incomum o fato de que inúmeros profissionais utilizam termos complexos, os quais dificultam o entendimento, a compreensão por parte dos seus pacientes, distanciando-os das decisões e da operacionalização de seus próprios tratamentos e cuidados médicos. Esse modelo ignora a biografia, o contexto social e a subjetividade do paciente, ou seja, não coloca em prática a humanização da informação.

Então, comecei a observar uma palavra que vem aparecendo amiúde no mundo contemporâneo das consultas médicas, saudável. Acontece que a tendência de generalização da expressão saudável, no campo da alimentação, pode significar riscos concretos. Por mais que as ciências médicas e os órgãos de saúde pública entendam que uma alimentação saudável possa ser definida como um padrão de consumo capaz de fornecer ao organismo todos os nutrientes necessários para seu funcionamento ideal, promovendo bem-estar e prevenindo doenças crônicas, nem tudo o que, em tese, é saudável pode realmente ser consumido por todos os pacientes.

Inclusive, porque há uma inacessibilidade aos produtos “saudáveis”, ou seja, ela se mostra como uma estratificação social, onde o consumo de alimentos nutritivos torna-se um marcador de classe, um privilégio e/ou uma distinção social.

Daí a importância de que os profissionais de saúde analisem caso a caso, o histórico clínico do paciente, na medida em que cada paciente acometido por uma dada patologia demanda uma avaliação particularizada em relação ao conceito de alimentação saudável. Aquilo que é benéfico para um pode causar reações adversas ou ser ineficiente para outro, dependendo de inúmeros fatores tais como metabólicos, genéticos, alérgicos, enfim.

Assim, para que haja sucesso na terapêutica proposta pelo médico, a relação dialógica deve ser estabelecida com o máximo de clareza, de dissecação das palavras e termos empregados, a fim de que o paciente se considere plenamente confortável diante das informações e seja capaz de assumir o seu papel no processo terapêutico, de maneira satisfatória.

Mas, como concretizar esse aspecto? Foi, então, que surgiu o segundo o ponto de reflexão, “O papel da historicidade do paciente na construção de uma proposta mais humanizada para anamnese”. Considerando a pluralidade e a diversidade social que chega aos consultórios, nem sempre o histórico de saúde, contemplando situações, hábitos e antecedentes, constitui uma base fidedigna para a maioria dos diagnósticos.

Portanto, é preciso trazer aos interlocutores uma construção comunicativa embasada pela empatia, pela ética, pelo respeito, pela cooperação ativa, pela interação social e pelo acolhimento humano. Razão pela qual, olhando pela perspectiva de que a vida é um filme e não uma fotografia, não é difícil perceber que no cenário das relações médico-paciente, muitas vezes, a informação humanizada não se realiza em razão das fragilidades presentes na construção comunicativa em si.

Apesar de o paciente, quando procura um profissional de saúde ter, naquele dado recorte temporal, uma queixa, um desconforto, uma dor, que precisa ser tratada, não raras as vezes, o cerne daquele problema não está no agora, no presente. Trata-se de algo que vem se desenvolvendo há tempos, inclusive, formando uma rede de interconexões com outras patologias, as quais o próprio paciente, muitas vezes, não tem conhecimento.

Além disso, há uma tendência de muitos profissionais se aterem à tradução dos resultados dos exames, a partir dos limites de referência estabelecidos, desconsiderando assim, uma análise mais ampla e integrada da situação. Por isso, não são raras as vezes em que o paciente não obtém o sucesso esperado em seu tratamento, entrando em um labirinto de lacunas não respondidas, de situações que continuam a reverberar quadros patológicos limitantes ou não; mas, capazes de fragilizar e alterar o seu bem-estar.  Trazendo a terrível sensação de caminhar em círculos sem uma solução para o seu problema.

Eis, então, a necessidade de romper com a homogeneização da doença, como se todos os pacientes fossem iguais, ou com a resistência em analisar o quadro atual em detrimento de toda a historicidade do indivíduo, ou com o excesso do protagonismo médico decorrente da sua apropriação do saber técnico-científico. Mas, como? O ponto de partida está na compreensão de que as etapas do desenvolvimento humano não são livros concluídos, do ponto de vista da historicidade clínica do indivíduo.

Nem todas as patologias que o acometeram, nessa ou naquela fase da vida, foram realmente debeladas. Algumas sim. Outras não. O que significa que rastros e vestígios puderam, então, se tornar o ponto de partida para o surgimento de outras doenças, tecendo uma rede de aspectos que se misturam, ao ponto de ocultar e dificultar os caminhos terapêuticos, quando não devidamente esclarecidos.

Nesse sentido, a possibilidade de se construir um panorama clínico do paciente, segundo o seu histórico por fase de desenvolvimento – primeira infância, segunda infância, terceira infância, adolescência, idade adulta e velhice, ou segundo os sistemas que compõem o corpo humano – esquelético/muscular, endócrino, respiratório, digestório, nervoso, excretor, tegumentar, reprodutor e linfático/imunológico, não pode ser desconsiderada, como ocorre com certa frequência.

 A partir de memórias, de lembranças, o paciente pode trazer ao conhecimento do médico essas informações, contribuindo de maneira significativa para a realização desse registro. Mas, tal dinâmica só acontece a partir de uma comunicação humanizada, ou seja, um modelo de interação capaz de reconhecer a individualidade e o contexto social de cada indivíduo, ao contrário de apenas os procedimentos técnicos. Nesse cenário, o papel do médico deve ser de um facilitador empático, que permite ao paciente ser sujeito ativo de seu próprio tratamento.

Mediante as informações extraídas nessa prática dialógica, o médico vai completando, aí sim, de maneira técnico-científica, o quadro da historicidade clínica do paciente, permitindo-lhe uma visão holística do indivíduo.

Como se pode perceber diante dessa breve reflexão, o que se buscou foi reafirmar a necessidade do equilíbrio na integração de métodos tradicionais e complementares da medicina, favorecendo o caminho da verdadeira humanização da assistência. Afinal, ela depende diretamente da humanização da comunicação.

Em linhas gerais, a forma como os profissionais de saúde dialogam, transmitem diagnósticos e acolhem os pacientes define a experiência do cuidado. Uma linguagem acessível, uma escuta ativa, o respeito à historicidade do paciente e uma dose generosa de empatia transformam o ambiente clínico e reduzem eventuais ruídos comunicativos que possam surgir.