DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE
DIA
MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE
Por
Alessandra Leles Rocha
Em 1972, quando a Organização das
Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 5 de junho como Dia Mundial do
Meio Ambiente, o cenário conjuntural do planeta já trazia os primeiros
grandes alertas de que os recursos naturais estavam se esgotando rapidamente,
devido à poluição e à degradação ambiental.
Desse modo o objetivo principal dessa
data foi e continua sendo criar uma plataforma de reflexão global e ação
coletiva para combater os desafios críticos que assolam a sociedade contemporânea,
tais como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e a poluição em suas
mais diferentes formas.
Acontece que discutir as questões
ambientais por si só não me parece suficiente, na medida em que elas são
cortadas e atravessadas por seres humanos diversos e plurais. Não, não existe possibilidade
de um debate ecológico sem discutir raça, classe e/ou desigualdade social.
O maior desafio para a construção
da sustentabilidade e da justiça socioambiental está na desumanização em curso.
Considerando que ela muitas vezes impulsionada pela hiperdigitalização, pelo
individualismo, pelas desigualdades econômicas extremas e pela mercantilização
das relações, cria um cenário onde o outro passa a ser visto como um recurso ou
obstáculo, produz um estado no qual o ser humano é despido dos seus direitos fundamentais
e da sua dignidade.
Por isso, não é possível se falar
de meio ambiente invisibilizando o papel da figura humana. Cada indivíduo é
parte indissociável desse ecossistema, atuando tanto como agente de
transformação e degradação quanto como peça central para a conservação e
regeneração.
Diante disso, a partir do ano
2000, foi estabelecida a teoria do Antropoceno, pelo químico Paul Crutzen e
pelo biólogo Eugene Stoermer, a qual sugere que a Terra saiu do Holoceno, um período
de estabilidade climática dos últimos 11.000 anos e entrou em uma nova fase, cujo
impacto coletivo humano é tão profundo que fica registrado nas camadas de
sedimentos do planeta por milhões de anos.
Em linhas gerais, isso significa que
a humanidade se tornou a principal força motriz de alteração dos sistemas
climáticos, biológicos e geológicos da Terra.
Portanto, quaisquer medidas de
contenção e mitigação dos impactos ambientais negativos não podem ser
alcançados e efetivados sem que haja uma transformação direta do pensamento
social contemporâneo. Esse é o pilar estrutural para reverter a crise ambiental
que vive a Terra.
Sem que haja uma evolução na
capacidade crítico-reflexiva do ser humano, capaz de fazê-lo evoluir da
exploração desenvolvida, e em curso, para uma ética de responsabilidade
coletiva e intergeracional, a sobrevivência do planeta estará sob risco permanente.
O que significa que é essencial reconstruir
uma cidadania planetária, promovendo a alteração de hábitos e comportamentos
desde a base, substituindo o modelo de extrair, produzir e descartar pela
economia circular, forçando o mercado a adotar práticas mais limpas de natureza
preservacionista e de sustentabilidade.
Veja, o propósito da economia circular
é estender o ciclo de vida dos produtos, transformando resíduos em novas matérias-primas
e maximizando a proteção de recursos naturais.
Assim, há um redesenho dos
produtos para que sejam mais resistentes, simples de serem reciclados e feitos
de materiais recicláveis. Bem como, uma diminuição do consumo de matéria-prima
e energia na fabricação, gerando menos resíduos desde a origem, e
possibilitando dar novas funções a produtos e peças, mantendo-os em uso pelo
maior tempo possível.
No entanto, a sociedade contemporânea
está tão ensimesmada no seu casulo de indiferença, desrespeito, falta de
empatia e distante do seu instinto de sobrevivência, que o negacionismo científico
tornou-se uma zona de conforto favorável à sua inércia quanto ao exercício
cidadão e humanitário.
Esse contexto, então, expõe como o
egoísmo narcísico e a desinformação paralisam o indivíduo, afastando-o da sua
responsabilidade coletiva e da preservação da própria vida.
Isolados em suas bolhas digitais
e preocupações exclusivas, os indivíduos perdem o sentimento de pertencimento a
uma coletividade, o que dificulta o exercício da alteridade, ou seja, a
capacidade de se colocar no lugar do outro.
Assim, a racionalidade egoísta e
imediatista sufoca o instinto de autopreservação da espécie, uma vez que os
fatos exigem uma visão de longo prazo e um esforço cooperativo, no qual a
lógica individualista não consegue abarcar.
Diante desse cenário impulsionado
pelo excesso de informações, pela polarização e pelo individualismo, cujo
objetivo é levar não só ao isolamento e à priorização dos interesses privados
em detrimento do bem-estar comunitário, tem-se o surgimento de uma dificuldade
extrema de compreensão de perspectivas divergentes, bloqueando o diálogo e a
construção de uma sociedade empática, humanitária e fraterna.
Por essas e outras é que o DIA
MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE precisa se tornar um ponto de partida para se refletir
sobre o modo como tudo isso gera uma perigosa inércia institucional e moral,
onde a indiferença diante da vulnerabilidade socioambiental facilmente se torna
normalizada.
Daí se tornar tão fundamental exigir que o debate abandone o campo meramente simbólico para proteger, de fato, contra as falhas sistêmicas que perpetuam a crise climática e social no planeta.
