Cadê o futebol brasileiro?
Cadê o futebol
brasileiro?
Por Alessandra
Leles Rocha
Todo esporte tem alma, tem identidade.
E com o futebol não é diferente. É essa essência que estabelece a forma de
executar a prática desportiva e as regras que o organizam. De modo que é nessa
composição entre subjetividade e objetividade que reside a magia capaz de
capturar o torcedor, preenchendo um espaço na dinâmica da sua própria construção
existencial.
Por aqui, na terra Brasilis, o
futebol como uma construção cultural e simbólica que transcende a mera prática
física ou o resultado técnico, fincou suas raízes em 1894, trazido por Charles Miller,
um brasileiro filho de ingleses que retornou da Inglaterra com bolas, uniformes
e o livro de regras. Passados quase dois séculos em que o lúdico do desporto abriu
as portas para que a criatividade e a emoção se fundissem e fizessem
desabrochar a necessidade de pertencimento e expressão na alma do torcedor,
tudo parece estar perdendo o seu encanto.
Diante dessa breve introdução,
posso imaginar que o (a) leitor (a) deve estar considerando surreal essa minha
reflexão, tendo em vista que faltam aproximadamente 45 dias para a abertura da
Copa do Mundo FIFA 2026 e o Brasil é o único país participante pentacampeão dessa
competição. Acontece que a pergunta título desse texto tem feito cada vez mais
sentido, quando se olha, com bastante atenção, para os (des) caminhos que se mostram no futebol
brasileiro ainda em campeonatos nacionais.
Nesses quase dois séculos de
presença nos gramados, é impossível fechar os olhos ao fenômeno que vem transformando
o futebol brasileiro pela ação da monetização e da mercantilização,
impulsionada pelo capitalismo esportivo, que o alçou à condição de um produto
mercadológico, integrado à lógica de acumulação de capital, da produção de
lucros e da espetacularização. O que esgarçou a sua gênese sociocultural de
resistência e ludicidade, popularmente conhecida como futebol-arte, e devolveu
a todos um futebol-negócio, uma indústria de entretenimento globalizada.
O jogo, antes valorizado pela
imprevisibilidade, pela arte da habilidade técnica, da genialidade nata do
atleta, e pela expressão cultural, passou a ser gerido como um ativo financeiro,
um produto comercial. A partir do mercado de transferências, dentro e fora do
país, os jogadores tornaram-se mercadorias e os torcedores foram convertidos em
consumidores de ingressos, de camisas e outros símbolos de fidelização ao clube
do coração, de planos de streaming para acompanhar os jogos, enfim...
De repente, a lógica do
capitalismo desportivo impôs padrões globais que transformaram e subordinaram o
futebol às práticas e aos interesses econômicos transnacionais. O que significou
a homogeneização cultural, a mercantilização da cultura corporal e o uso do
esporte como aparelho ideológico para consumo e controle social, ou seja, o
futebol só tem valor enquanto mercadoria. A velha paixão popular foi substituída
por um nicho de mercado e consumo, onde o fetichismo da marca substituiu o jogo
em si.
E todo esse processo tende a apagar
as identidades locais em troca de padrões europeus ou elitizados. Como ele foi
reconfigurado para ser exibido na televisão e nas redes sociais, esse modelo
abre espaços usados para disseminar e legitimar situações alheias à sua
verdadeira alma, tais como propagandas políticas, desvio da atenção aos escândalos
e problemas estruturais no desporto, e a promoção de uma ideologia burguesa de
meritocracia. Algo que traduziu em uma flagrante perda da diversidade lúdica e
da essência do futebol.
Mas, não bastasse isso, houve uma
mudança estrutural de clubes de natureza associativa para empresas, conhecidas como
Sociedade Anônima do Futebol (SAF), as quais visam o lucro e a eficiência
financeira, muitas vezes priorizando o equilíbrio de caixa em detrimento da
identidade do clube e da participação popular nas decisões. Levando o futebol a
ser remoldado para atender aos interesses da mídia e dos grandes
patrocinadores, influenciando os horários de jogos, as regras e o comportamento
nos estádios, que adquiriram um certo status de arenas elitizadas.
Então, na esteira dessa
transformação emergiram as casa de aposta virtuais, as chamadas BETs,
consolidando uma alteração profunda na relação entre esporte, economia e
sociedade. De repente, o mundo contemporâneo se viu imerso em uma conversão do
futebol, ou seja, de uma manifestação cultural popular para um esporte
mercantilizado, onde a emoção é vendida e a aposta transforma o torcedor em
consumidor de risco.
O papel das BETs se dá da
seguinte maneira, as apostas patrocinam os clubes para elevar vendas e expandir
capital, associando o esporte ao consumo e à imagem, onde a marca da aposta se torna
mais importante que a tradição do clube. Assim, o jogo perde parte da sua
autonomia, sendo condicionado pela necessidade da aposta para validar a emoção.
Naturalizando o jogo como investimento racional e meritocrático, frequentemente
associado a influenciadores digitais.
O pior é que esse marketing
perverso das apostas é focado, muitas vezes, em populações vulneráveis,
prometendo ascensão
financeira rápida através da sorte. Se desdobrando, de maneira veloz,
em endividamento e pauperismo social; pois, o vício em apostas online cresce vertiginosamente,
afetando a saúde mental e a saúde financeira das famílias, gerando perdas
econômicas, aumentando a desigualdade social e, em casos extremos, levando
pessoas a autoexterminar-se.
Por essas e outras, o verdadeiro
futebol brasileiro sumiu, desapareceu. O rolo compressor do capitalismo
esportivo; sobretudo, potencializado pelas SAFs e BETs, desconfigurou a sua
alma, a sua essência, a sua identidade. Sim, ele retira a dimensão humana e
cultural do jogo, transformando-o em um veículo para a expropriação financeira,
onde o lucro é privatizado, acumulado por corporações, muitas vezes à custa da
população de menor renda.
Daí a necessidade urgente de repensar a realidade do futebol brasileiro. A fim de se evitar que ele venha a sucumbir completamente, tornando-se apenas uma fábrica de mercadorias e de cassinos virtuais, em detrimento de seu papel de construção de identidade cultural coletiva e de ludicidade. Afinal, a implementação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e a onipresença das casas de apostas (BETs) está erodindo, lenta e gradativamente, os valores do futebol, destruindo o simbolismo geracional enquanto manifestação cultural de massa.
