A permissividade indecorosa na política brasileira

A permissividade indecorosa na política brasileira

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Assunto requentado?! Infelizmente, sim. Afinal, ela descreve a tendência das elites brasileiras de ignorar as leis e as normas éticas em benefício próprio, partindo da perspectiva de que pertencem a uma camada da população que está acima das regras sociais. Mesmo já estando em pleno século XXI.  

O fato dessa vez, diz respeito à notícia de que a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou, hoje, a ida de uma comitiva paga com dinheiro público aos EUA para pedir asilo político a um ex-deputado federal, condenado a 16 anos de prisão em regime inicial fechado, no âmbito da Ação Penal 2668, que investigou a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Bem, essa é a perpetuação de um comportamento explorador e dono do poder que se sente autorizado a transgredir sem consequências, tratando o país como uma extensão de sua propriedade privada. De certa forma, quando se fala dessa permissividade indecorosa, nos dias atuais, o que se tem é a demarcação de uma linha imaginária de pseudopoderes.

Veja, ao longo da historicidade, tem-se exercido uma tolerância excessiva a um largo espectro de comportamentos moralmente questionáveis ​​ou inadequados, os quais não desfrutam, de fato, de quaisquer fundamentos, mas sim de uma ilusão de autoridade e controle.

Um verdadeiro pseudopoder que atua em detrimento dos direitos e das demandas da grande massa da população nacional, cujo resultado é sempre um cenário onde a linha entre o tolerável e o abusivo é eliminada, gerando fragilidade nas relações sociais, institucionais e organizacionais.

No caso da representatividade político-partidária nacional; sobretudo, no campo legislativo, essa permissividade indecorosa emerge de maneira ainda mais repulsiva e degradante, porque ela expõe a existência de uma crise de legitimidade institucional e a péssima atuação dos partidos políticos ligados ao amplo espectro da Direita brasileira, em seus diferentes vieses.

Basta observar que esses partidos atuam com foco em interesses próprios, corporativos ou econômicos, em prejuízo do interesse público, promovendo uma total desconexão entre os representantes eleitos e as demandas da população.

Uma atuação parlamentar que flagrantemente contrasta com as responsabilidades éticas exigidas pelo cargo, tornando-se, então, assunto midiático frequentemente associado aos escândalos de corrupção, infidelidade partidária e mudança de posicionamento ideológico por conveniência.

E a pergunta que muitos se fazem é: por que é assim?! Porque a República, no Brasil, foi majoritariamente alicerçada pelas elites e oligarquias. Desse modo, historicamente, o Legislativo tende a se manter como um espaço elitista, que atende a interesses privados e econômicos, distanciando-se das verdadeiras demandas da sociedade.

Haja vista, por exemplo, a falta de diversidade racial, de gênero e social no Congresso Nacional, que na verdade não traduz a percepção de ser a “Casa do Povo”, tendo em vista de que não reflete a diversidade e a pluralidade da população brasileira.

Por isso, quando alguém se depara com uma notícia dessas, circulando nos veículos de comunicação, nacionais e estrangeiros, tem um gosto de fel nos lábios. Ora, tais acontecimentos são, em grande parte, derivados dessa permissividade indecorosa, na política brasileira, e fazem pensar sobre a ascensão dos chamados outsiders.  

Quando o eleitorado, desencantado com os políticos profissionais, busca figuras não qualificadas ou externas ao meio político como soluções salvacionistas, desregulando o controle de qualidade dos candidatos.

Sim, porque esses tais outsiders advém de carreiras fora da política institucional, tais como o entretenimento, o empresariado, o militarismo e outras atividades, carecendo, então, de vivência nos processos à luz da política.

São indivíduos que assumem a gestão pública despreparados de conhecimento técnico e burocrático, gerando instabilidade ou má administração. No fundo, eles são simplesmente uma aposta, uma aventura, de parte dos eleitores contra o establishment nacional.

É importante lembrar que, na contemporaneidade, esse fenômeno se dá principalmente pela motivação de eleitores antissistema, que se fundamentam a partir de distorções e mentiras disseminadas nas redes sociais, gerando uma realidade paralela que alimenta a polarização e a desconfiança nas instituições democráticas.

De modo que esses eleitores trabalham, de maneira consciente ou não, em favor da desinformação para que ela funcione como estratégia de mobilização e neutralização de oponentes. Daí a importância do exercício do voto com seriedade, com responsabilidade.

No fim das contas, quem abre espaços e brechas para a reafirmação da permissividade indecorosa na política brasileira é o próprio cidadão, quando se abstém de questionar a reprodução de práticas culturais e comportamentais que apagam a fronteira entre o que é público e o que é privado. Pois, isso gera a liberdade de favores, o nepotismo e o uso de recursos públicos para fins pessoais, ou que, em maior escala, se transforma na corrupção institucionalizada.