A humanidade e sua comoção seletiva
A
humanidade e sua comoção seletiva
Por Alessandra
Leles Rocha
Infelizmente, observando o fluxo
da historicidade humana, cada vez mais me convenço de que o instinto nato de sobrevivência
da espécie não dispõe, na verdade, de uma relação direta com o sentimento de
comoção.
Apesar de a empatia e a
solidariedade terem sido mecanismos fundamentais para a manutenção do Homo
sapiens na Terra, a história, de fato, demonstra que essas emoções costumam
operar de forma limitada e enviesada.
De modo que, diante de tragédias
naturais ou antrópicas, o que se percebe é que a comoção se mostra totalmente
assimétrica. Isso significa que a indignação pública, a empatia e a
solidariedade são despertadas de forma desigual, ou seja, dependendo de quem
são as vítimas, onde o evento ocorreu ou de como a mídia ou o contexto tratam o
assunto.
Esse comportamento, então, revela
vieses inconscientes e escolhas, muitas vezes, calculadas. Começando pelo fato
de que as pessoas tendem a se comover mais com as tragédias que afetam
indivíduos mais próximos de sua raça, classe social, nacionalidade ou estilo de
vida.
Inclusive, em locais onde a
violência ou a pobreza são crônicas, a sociedade acaba por desenvolver uma cegueira
ou apatia, enquanto eventos inesperados em áreas privilegiadas geram comoção
global, ás vezes, por meses.
Portanto, as vidas marginalizadas
tendem a não receber o mesmo luto público que as vidas pertencentes a grupos
dominantes, gerando uma reflexão crítica sobre quais vidas são consideradas importantes
e quais não são.
Aí, para completar esse cenário, o
destaque dado pelos veículos de imprensa e redes sociais para tais tragédias obedecer
ao escrutínio dos interesses daqueles que detém os diferentes tipos de poder na
sociedade. Tanto que, não é raro verificar, que em relação àquilo que gera
indignação em massa seja tratado como mera estatística.
É dessa forma que a comoção
seletiva constrói uma solidariedade assimétrica. Basta olhar para certos
exemplos recentes. As inundações históricas na região sul do Brasil geraram uma
mobilização nacional massiva, com arrecadações bilionárias, enquanto os desastres
contínuos e severos causados por secas prolongadas no semiárido ou enchentes nas periferias do Norte e
Nordeste costumam ter menor cobertura midiática e
comoção institucional.
Mas, extrapolando as fronteiras
nacionais, o conflito no Leste Europeu, com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia
gerou uma onda global de solidariedade imediata, com abertura de fronteiras,
campanhas de ações e forte cobertura da mídia.
Acontece que, paralelamente, crises
humanitárias prolongadas, embargos e guerras civis com números devastadores de
mortos e refugiados recebem uma fração ínfima da atenção global. Palestinos, sudaneses,
iemenitas, congoleses, cubanos.
Milhões de vidas humanas já
enfrentam deslocamentos forçados, fome severa, violência extrema, colapso dos
sistemas de saúde nessas regiões, desabastecimento de recursos básicos, ausência
de moradia, frequentemente exacerbados por cortes em orçamentos de assistência
internacional. Mas, a gravidade alarmante dessa situação parece não existir para
muitas pessoas, provando que a comoção é seletiva.
De repente, descobri que há uma
relação direta entre a comoção seletiva e a necropolítica. Acontece que a
comoção seletiva opera como o braço ideológico e midiático desse processo, na
medida em que ela se manifesta quando a sociedade civil e os meios de
comunicação reagem com indignação a algumas tragédias, ao mesmo tempo em que
naturalizam ou ignoram a violência extrema e as mortes diárias que atingem
populações marginalizadas; sobretudo as minorias sociais, que possuem menor
acesso ao poder, recursos e representatividade, e são excluídos de maneira sistêmica
em razão das desigualdades de gênero,
raça, orientação sexual, religião ou deficiência.
Desse modo, o que se tem é uma distinção
tácita entre vidas que importam e vidas que não importam e sequer são passíveis
de luto. Por isso, quando uma tragédia atinge setores hegemônicos, há comoção e
solidariedade imediata; mas, quando os vulneráveis são atingidos, a morte é banalizada como um dano colateral ou consequência natural de sua condição social.
Há uma franca desumanização desses
indivíduos, como se eles pudessem ser tratados como indesejáveis ou indignos. Aí,
a partir dessa estereotipização, há uma legitimação da violência. O silêncio ou
a apatia diante da morte de minorias proporciona um aval social para que o
Estado continue operando políticas de negligência e força bruta nesses
territórios.
Nesse sentido a necropolítica,
por meio da comoção seletiva, traça uma linha divisória na sociedade contemporânea
demonstrando um alinhamento ideológico do ser humano em relação à desumanização.
Assim, é fácil identificar quem
aceita que corpos humanos estejam sujeitos à eliminação e à violência diária,
ou normalizem/invisibilizem o sofrimento diário das populações vulneráveis, ou
reafirmem o processo de objetificação/coisificação, o qual facilita a
manutenção das estruturas de opressão e exclusão social, porque o filtro ideológico
dessas pessoas molda e traduz a narrativa para que a morte de certos grupos
sociais seja vista como natural ou necessária.
Por isso, a comoção seletiva não tem nada a ver com emoção, sentimento ou lógica. Ela é fria, dura, insensível, estratégica. Totalmente despojada de ética, de consciência, para a ser o mais cruel e perverso cálculo moral. E isso me faz concordar com Frantz Omar Fanon, psiquiatra e filósofo político franco-caribenho, “O que importa não é conhecer o mundo, mas mudá-lo”; pois, o conhecimento em si mesmo é só perfumaria. Para ser instrumento de transformação, ele precisa ser aplicado com consciência, com objetivo, com senso de humanidade.
