05 de Set. - DIA DA AMAZÔNIA
Entre
a Natureza e a natureza humana
Por
Alessandra Leles Rocha
Chegamos a um tempo
em que a reflexão e a discussão ambiental se tornou tão polarizada entre
exploradores e preservacionistas, que a única oportunidade de equilíbrio advém
do bom senso e de um olhar desapegado das paixões. Sobretudo, no Brasil.
Não preciso
reafirmar que nossa história de ex-colônia de exploração portuguesa exauriu
sobremaneira nossos recursos naturais e, quase, extinguiu por completo a
presença de árvores nobres como o Pau-Brasil. Tudo para servir aos caprichos e
interesses mercantis da Metrópole europeia.
Por certo eram
outros tempos e a humanidade não dispunha de informações e conhecimentos a
respeito dos resultados que repercutiriam dessas práticas. Aliás, demandaram
alguns séculos para que isso se tornasse efetivamente objeto de estudos e
interesses político-econômicos ao redor do planeta; bem como, de códigos, leis
e doutrinas.
Mais precisamente,
há pouco mais de meio século, é que um grupo de pessoas preocupadas com o
crescimento populacional e os impactos da urbanização e industrialização das cidades
resolveram se reunir para estabelecer uma proposta de Desenvolvimento Sustentável para o planeta. Denominado Clube de Roma, esse foi o evento
precursor para todos os demais que se sucederam, com o apoio da Organização das
Nações Unidas (ONU) e outras entidades ligadas as questões de meio ambiente.
Portanto, se a
reincidência de impactos ambientais negativos persiste no mundo, jamais se pode
culpar a sociedade, justificando-lhe desconhecimento. A ciência tem estado
debruçada em tempo integral, coletando, analisando e interpretando dados
oriundos de satélites, pesquisas de campo, amostras para subsidiar
adequadamente as legislações, as políticas e os modelos de gestão.
Entretanto, é
inegável o quão impregnado se encontra no inconsciente humano os ranços
Mercantilistas, dos séculos XV ao XVIII, especialmente, no que tange as
práticas exploratórias dos recursos naturais. Mesmo cientes de que muitos deles
não são renováveis, como o petróleo, o carvão mineral, os minérios, os
materiais radioativos e o gás natural; o que significa que, suas reservas são
finitas.
Tendo em vista que a
população mundial em muito extrapolou as cifras desse passado secular e as
atividades econômicas passaram a orbitar os interesses e as demandas desse
contingente em franca expansão, não é difícil imaginar que dadas às limitações
quantitativas de recurso, o tempo útil de exploração se torna cada vez mais
insuficiente e restrito também. De modo
que, uma jazida que era capaz de ser explorada durante várias décadas, por
exemplo, agora é exaurida em muito menos tempo de exploração, deixando imensas
crateras e um solo empobrecido e desprotegido, vulnerável as intempéries do
clima.
E não bastassem os
extrativismos legais e ilegais existentes, as discussões sobre os terríveis
impactos ambientais vão muito mais além das perdas de recursos naturais, de
fauna e de flora. Simplesmente, o mau uso e ocupação do solo perturba a
dinâmica natural da vida sobre o planeta e interfere de maneira direita sobre o
clima, o relevo, a vegetação, a hidrografia, o que se traduz em fenômenos que
prejudicam a sobrevivência dos seres humanos.
Efeito estufa e
ilhas de calor são exemplos de impactos climáticos negativos de grande
repercussão para a sociedade. Erosão, desertificação são exemplos dos impactos
negativos sobre o relevo. Desmatamento, queimadas, extrativismo ilegal são
exemplos dos impactos negativos sobre os principais biomas. Assoreamento,
poluição, supressão das matas ciliares são exemplos dos impactos negativos
sobre a hidrografia. E tudo isso está cotidianamente presente nas mídias para
nutrir de informação, ignorantes e letrados.
A questão é que as
consequências desses processos são sentidas direta e indiretamente pela própria
sociedade, seja por questões de ordem econômica seja por questões de qualidade
de vida e sobrevivência. O desenvolvimento insustentável adoece a humanidade
pela fome, a partir da baixa oferta e produção de alimentos em diversas regiões
do planeta; pela poluição, que contamina o ar, a água e os próprios alimentos
em níveis intoleráveis a salubridade; pelas variações extremas de temperatura,
que rompem o padrão de equilíbrio do organismo humano e o torna vulnerável ao
acometimento de inúmeras doenças.
Em linhas gerais, o
descaso e a indiferença que se possa dispensar a essa situação não altera o
fato dela estar presente e repercutindo diariamente sobre cada um. De modo que
é preciso parar e pensar antes de reclamar das mazelas, porque elas são o
reflexo do modo como a humanidade pensa e se comporta; uma reação direta as
nossas próprias ações. O mundo é só um grão de areia na imensidão do infinito.
Qualquer posição contrária é mera questão de perspectiva equivocada ou
insensatez deliberada. Ele não só é uma esfera limitada, mas exibe inúmeras
limitações a nossa presença, muitas das quais não podemos ao menos
contornar.
Bem, para quem não
sabe, hoje é comemorado o Dia da
Amazônia. Quanta coisa a mais a se
pensar, então, sobre Desenvolvimento
Sustentável, Biodiversidade, Consciência Indigenista,... Afinal,
juntamente com a Floresta Tropical do Congo e da Floresta Tropical da
Indonésia, a Floresta Amazônica
conserva aproximadamente 50% da biodiversidade do planeta, sem contar o seu
imenso potencial de armazenamento de dióxido de carbono.
Mas, lentamente ela
se curva aos golpes do Neo-Mercantilismo;
sobretudo, na sua porção brasileira. Por isso, não há o que comemorar. Estes
são tempos de celebração do luto. A natureza na sua expressão maior está
morrendo, na medida em que o ser humano falece em valores e princípios. A Amazônia
em chamas, bem como o Cerrado e
o Pantanal, são a materialização da
indiferença, da cegueira, da loucura capital.
Sendo assim,
deixemo-nos apenas encontrar algum tipo de alento em palavras que possam nutrir
uma ponta de esperança: “Sonhar o sonho impossível, sofrer a
angústia implacável, pisar onde os bravos não ousam, reparar o mal irreparável,
amar um amor casto à distância, enfrentar o inimigo invencível, tentar quando
as forças se esvaem, alcançar a estrela inatingível: essa é a minha busca”
(Miguel de Cervantes - Dom Quixote de La
Mancha).