Tornar-se escritor(a)...
Tornar-se
escritor (a)...
Por Alessandra Leles Rocha
Pode ser que uma folha de papel em
branco ou uma tela de computador cause certo desconforto em muita gente. Afinal,
quem disse que essa não pode ser uma maneira sutil de coagir uma pessoa a
manifestar a expressão de suas ideias?!
Particularmente isso não acontece
comigo. Escrever me dá asas, como se as palavras pudessem registrar a transcendência
de todas as emoções e sentimentos que não cabem em mim. Parecido com a lágrima,
decorrente do choro, a expressar a intensidade daquilo que preenche e, ao mesmo
tempo, incomoda a alma de maneira perturbadora. Por isso agradeço a
oportunidade da alfabetização e do letramento.
A cor do mundo vem das palavras,
das linguagens, das ideias. Da mesma forma que são elas que dimensionam o seu
tamanho e a sua grandeza. Colocadas com o cuidado devido, de carreirinha, uma atrás
da outra, elas trazem a silenciosa companhia que dialoga sobre a diversidade da
vida em dias de chuva ou de sol.
Conversa boa que nos faz esquecer
o tamanho do dia, das obrigações, do cotidiano, da rotina, alargando as
perspectivas, os olhares, as fronteiras além de si mesmo. Sim, porque escrever
é conversar. É debater sobre as utilidades e as futilidades. É discutir os interesses
e as desimportâncias que existem por aí. É refletir além do raso, das
dicotomias, das imprecisões.
Como se vê não faltam motivos para
uma boa escrita. Boa no sentido do prazer e da liberdade que proporciona; não,
necessariamente, de aspectos técnicos ou linguísticos. Porque, antes de tudo,
escrever é um ato que demanda prazer, uma genuína satisfação que aquece os sentidos.
Escrever começa em alguém e
termina em uma coletividade inestimável. Nunca se sabe, com precisão, onde é
que aquelas palavras irão chegar. A quem elas irão tocar. Nem de que forma. Nem
com qual intensidade. Nem, tampouco, como serão aprendidas e apreendidas. Muitas
alicerçam pontes. Outras queimam. Muitas inspiram. Outras conspiram. Muitas
pacificam. Outras rebelam. ... Por isso
escrever é tão desafiador.
Tornar-se escritor (a) é,
portanto, um risco a se correr. Na semente da ficção, do imaginário, há sempre a
presença da subjetividade autoral; ainda que a metáfora tente dissimular. Tal qual uma marca d’água, uma impressão sem digital, há um jeito todo particular de expressão que entrega a indubitável e própria potencialidade e habilidade
contidas naquela escrita.
Não é à toa que alguns tendam à
prosa e outros à poesia. Que uns façam rir e sonhar, enquanto outros fazem
chorar e pensar. Sei lá, escritor (a) e palavras estabelecem um tipo de
simbiose linguística muito peculiar. Um certo tipo de relação de amor e ódio,
de cumplicidade e de entrega, que resulta em tecidos textuais delicadamente
resistentes, discretamente exuberantes e, não raramente, polidamente
provocativos.
De modo que, talvez, seja esse
contínuo movimento, o grande responsável por retroalimentar a inspiração. Tudo
se transforma em pretexto. Em tudo existem palavras; ditas, não ditas, mal
ditas... mas, que exigem se registrar. E um escritor, ainda que em potencial,
não pode, não deve e, certamente, não quer deixar a oportunidade passar em
branco. Então, escreve.
Sem se dar conta, um dia esse escritor
(a) se pergunta onde tudo começou, porque decidiu escrever. Uma ideia aqui, outra ali; mas, não bate o
martelo sobre a versão real. Só sabe dizer que a escrita virou vício, terapia, ocupação,
realização,... alegria. Tornar-se escritor (a) deu sentido à vida, ao mundo, as
palavras que sufocavam que angustiavam o seu espírito. Tornar-se escritor (a)
fez romper um casulo, fez surgir uma borboleta, fez o céu expandir os limites,
fez a tristeza menos pesada e mais translucida; enfim, fez a vida bem mais
interessante. E não é que, por tudo isso, ele (a) acaba conquistando um dia especial
no calendário! Vambora, então, comemorar!