Eles querem mudar o mundo, você não?!
Eles
querem mudar o mundo, você não?!
Por
Alessandra Leles Rocha
Ah, a juventude! Está nela um
desejo imenso de transformar o mundo. Por sorte, quase sempre, uma
transformação para o bem, altruísta, solidária, fraterna. E o que não lhes
falta é energia! Vitalidade! Ousadia! Para
arregaçar as mangas. Preparar os discursos. Liderar as marchas. ... Enfim,
fazer barulho no melhor sentido que isso possa significar.
A juventude é sim, a maior
formadora de opinião. E isso nem é por conta das Tecnologias da Informação e Comunicação
(TICs), tão presentes e ativas na realidade do século XXI. Talvez, todo esse
movimento juvenil tenha começado por um certo nazareno, que viveu apenas 33
anos; mas, revolucionou o mundo com suas ideias de paz e amor. Sofreu injúrias,
calúnias e difamações, como tantos jovens antes e depois dele. Morreu por suas
ideias; mas, elas seguiram adiante e permaneceram vivas e repetidas como ele
jamais pensou que poderiam ser. Até mesmo, por gente semelhante aquela que o
crucificou.
Mas, essa inquietude me parece
perfeitamente normal. Pais, mães e responsáveis cortam um verdadeiro dobrado
para ensinar, educar e trazer valores e princípios aos filhos. Então, a
primeira coisa que se constitui em um ser humano é a célebre dicotomia entre
certo e errado. Quando chegam à adolescência, ou efervescência dos sentidos, é
impossível não contestar o que foi dito e repassado até ali.
Seus olhos estão amplamente
abertos. Seus ouvidos atentos ao que se diz. Suas cabeças estão plenas para
processar milhões de informações por minuto. A juventude é, portanto, o tempo
da primeira ressignificação. Tudo adquire novos contornos, formas, cores e
valores. Cada um tem em si os caminhos da sua revolução para um mundo melhor.
E com tudo junto e misturado, a
juventude se alimenta do ideal e faz dele a sua bandeira, mesmo que seja com certa
dose de exagero. Mas, exagerar é, também, sinônimo de juventude. É a vida a
flor da pele. É a adrenalina que faz o corpo tremer e sorrir.
No entanto, se engana
redondamente quem pensa que não há seriedade, suficiente, na juventude.
Descobridores e desbravadores no sentido mais pleno dessas palavras, eles são
capazes de enxergar o mundo como ele é. Sem retoques. Sem artifícios. Diante de
uma verdade nua e crua. Por isso, sua consciência tão ativa e altiva para a
transformação. Não há desafios que lhes impeçam de lutar. A sua própria existência
é uma expressão combativa. Cabelos. Roupas. Linguagem. Na juventude tudo é
capaz de falar; inclusive, não há nada mais eloquente do que o seu silêncio.
E por tamanha capacidade de “combater
o bom combate”, eles causam tanto incômodo. Certamente, porque são o espelho
daqueles que aguardaram o tempo certo para fazer e não fizeram ou se eximiram
das responsabilidades, aguardando que alguém fizesse por eles. Agora, eles não dispõem
mais desse arrojo, dessa vitalidade, desse idealismo correndo nas veias. Cansaram.
Sentaram. Aguardam a vida se arranjar e, um dia, a morte chegar.
No fundo, há uma pontinha de
inveja por tudo o que os jovens pensam, falam e fazem. A juventude,
principalmente essa que está diante dos nossos olhos, é fantástica. Ela
transcende o discurso na manifestação mais intensa de si mesma; ela age segundo
as suas próprias ideias, então, não há distorção entre o dizer e o fazer.
Portanto, ela consolida a sua visibilidade pelo exemplo, de modo que o
engajamento promovido por essas lideranças jovens ao redor do planeta é
contínuo.
Greta Thunberg, Malala Yousafzai, Emma
González, Jack Andraka e Amika George, são apenas algumas dessas
lideranças que estão, de fato, transformando o mundo. Mas, veja os milhares e
milhares de jovens que foram às ruas nos Estados Unidos e em outros países, durante
os protestos contra o racismo e a violência policial. Ou aqueles que lideram
projetos sociais e de educação em suas comunidades, por meio de formação de bibliotecas,
da aquisição de cadeiras de rodas a partir da venda de lacres de latas de
alumínio, da construção de hortas comunitárias para reduzir o déficit nutricional
e alimentar das famílias de baixa renda, enfim... Essa é a juventude que quer
um planeta inteiro e não pelas metades, dividido pelo ódio, pela intolerância,
pelas desigualdades. Essa é a juventude que quer um mundo saudável de cabeça,
de corpo e de alma.
Que bom
que seja assim! Que bom que essa juventude esteja comprometida com a sua consciência
humana e cidadã, ao ponto de construir uma rede de compartilhamento desses
valores. O voto democrático tem uma dimensão extremamente importante para esses
jovens; mas, eles já entenderam que ele representa só um pedaço dentro da
cidadania. Sem a responsabilidade, o engajamento, a participação ativa da
sociedade, o mundo não sai do lugar. Se a raça humana se transformou tanto
desde os primórdios, como pensar que as relações sociais não demandem o mesmo
processo? A evolução implica em arejar as ideias, revolver as perspectivas e as
expectativas, ler as linhas e as entrelinhas das linguagens, criar, imaginar,...
enquanto o mundo gira, todos deveriam girar também.
Viva a
juventude! De famosos. De anônimos. De pessoas que não estão nessa vida a
passeio. São eles os ventos da mudança que o mundo tanto carece. Erros e
acertos não são privilégios de nenhuma idade. A maturidade traz experiência;
mas, não necessariamente a sabedoria. Portanto, deixemos a juventude voar!
Semear esperanças! Plantar flores e emoções! Porque um dia, como escreveu
lindamente Arnaldo Antunes, “A coisa mais
moderna / que existe nessa vida é envelhecer / a barba vai descendo / e os
cabelos vão caindo pra cabeça aparecer/ Os filhos vão crescendo / e o tempo vai
dizendo que agora é pra valer / os outros vão morrendo / e a gente aprendendo a
esquecer [...]” 1.