O que nos contam as guerras?
O
que nos contam as guerras?
Por
Alessandra Leles Rocha
A agilidade e a efemeridade que
figuram no mundo Pós-moderno com tanta intensidade, talvez, sejam as principais razões para
que se ofusquem, de certo modo, a percepção e a significância das guerras e
seus desdobramentos nas sociedades.
O tempo é um inimigo silencioso da
memória e, nesse sentido, consegue auxiliar magistralmente aos interesses
vigentes a fim de manipular e persuadir as gerações, fazendo-as tender para uma
sensibilização, de algum modo, controlada.
Não é à toa que o povo judeu, por exemplo, se
esforça tanto para manter viva a memória dolorosa do Holocausto. Para que de
geração em geração não sejam esquecidos os horrores, as perversidades, as
brutalidades arbitrárias impostas pelo regime nazista durante a Segunda Guerra
Mundial.
Depois disso, outras guerras se
sucederam entre nações. Até que, mais recentemente, em pleno século XXI, o
mundo assistiu de perto a Guerra na Síria e o deslocamento forçado de milhões de
pessoas em busca de refúgio. Um conflito que pode ser registrado e exibido em
tempo real, por conta das tecnologias.
O planeta pode ver e avaliar a
dimensão do significado daquelas imagens, daqueles relatos, daquele
sofrimento estampado e marcado nos rostos de milhares de inocentes. Sem contar o fato da
expansão brutal dos campos de refugiados e as travessias desesperadas em busca de
um recomeço de vida, de um mísero quinhão de paz e dignidade.
E se não puderam se consternar
efetivamente diante de tudo isso, ao menos não podem alegar ignorância e
desconhecimento a respeito. A guerra é a falência humanitária expressa na
incapacidade dialógica de resolução de demandas e conflitos. Portanto, ela esfacela
tudo o que vê pela frente, até que não reste nada. Nada de pessoas. Nada de
dignidade. Nada de esperança. Nada de material. Nada... Resumido na polarização
entre pseudo vencidos e pseudo vencedores.
Porque a verdade é que não há vitória em nenhuma guerra. Ela
termina pela exaustão em todos os níveis humanos e materiais. A rendição é só um
ponto de vista para se escrever no papel. Porque no fundo todos estão rendidos
pela dor, pelo desespero, pela brutalidade, pela incapacidade de restabelecer o
diálogo, a civilidade. Daí o nada ser tão
somente a representação da extensão da perda. Por isso, quanto mais à guerra se
arrasta maior é a destruição e o volume dos escombros; bem como, maiores são os
desafios da reconstrução.
A começar pelas identidades que
foram abruptamente ressignificadas. Do mesmo modo, as emoções, os princípios, as
perspectivas, as expectativas. A guerra, seja ela qual for, faz um reset na sociedade. Ela redefine a vida
ao zero da escala para, a partir desse ponto, ser reiniciada.
De modo que, se a guerra em si é
amarga e cruel, o pós-guerra é ainda mais terrível. Recomeçar sob uma atmosfera
tão tensa, tão pesada, tão surreal não é uma tarefa simples para ninguém. Infelizmente,
a destruição só faz visibilizar as mazelas sociais de ontem, de hoje e de
amanhã. A pobreza é maior. A miséria é maior. A violência é maior. O
desemprego...
Além do fato de que se criam
inimigos, os quais passam a assombrar o imaginário sem trégua. Há a construção
de uma espera altamente desgastante pela investida bélica do outro. Essa
paralisia que se institui, portanto, impede o fluxo natural do desenvolvimento
e de quaisquer projeções de progresso. Porque nessa espera todos os recursos se
voltam para o conflito que vai, assim, alimentando a si mesmo e subnutrindo o
resto.
Portanto, qual o valor teria a “massa
falida” de uma terra arrasada pela guerra? Talvez, a subserviência em nome da
sobrevivência. Tempos de experimentação a uma nova proposta “neocolonialista”.
Um mergulho aos abismos da indigência contemporânea. Um choque de realidade com
altos requintes de barbárie.
Não é sem razão que a ideia de que “os fins justificam os meios” já foi
derrotada há tempos, especialmente na materialidade de tantas guerras e
conflitos. Guerras não são fins e nem meios, como muitos querem crer. Aliás, como
escreveu Leon Tolstói em sua obra Uma Confissão, “errado não deixa de ser errado porque a maioria
compartilha”.
A verdade é que o mundo tem
problemas demais para se precisar de pequenos pretextos e estopins fabricados a
luz de ideias medíocres e mesquinhas, de narcisismos sórdidos, de ultrajes
delirantes. Desse modo, não nos esqueçamos de que “antes de falar sobre o bem da satisfação das necessidades, é preciso
decidir quais necessidades constituem o bem” (Leon Tolstói); só assim, as
guerras poderão permanecer ao nível de conjecturas desvairadas e, por sorte, distantes
do alcance das mãos e da razão.