Uma análise crítico-reflexiva sobre as nossas convivências


 Uma análise crítico-reflexiva sobre as nossas convivências




Por Alessandra Leles Rocha




Conviver é uma arte? Para alguns sim. Para outros não. Para mim, talvez. Demanda tempo. Demanda dedicação. Mas, sobretudo, demanda afinidade para unir os elementos principais, ou seja, as pessoas. Por isso há conhecidos, colegas, amigos e irmãos (ãs) de alma. As relações humanas não são um protocolo, porque gente é de uma complexidade que ultrapassa definições.
Somos seres únicos e disso ninguém duvida. Então, o que a vida nos presenteia é a busca por reunir ao nosso redor, inclusive na própria família, pessoas que tenham mais pontos em comum conosco do que arestas. Afinal, se engana quem pensa que é possível aplainar de maneira suave e harmônica todos os pontos de divergência, todos os espinhos rombudos do cotidiano, que temos uns com os outros, de modo a levá-los a se transformarem em afinidades.  
Assim, algumas pessoas estarão bem próximas e outras bem distantes de nós. Não por maldade, descaso ou coisa que o valha; mas, por uma impossibilidade natural em estarem tão diametralmente a nós. Falta conexão. Falta assunto. Falta... alguma coisa que impede uma convivência mais fluída.  De repente, você percebe que os interesses, os assuntos, as pessoas com que o outro convive, os locais que frequenta,... não fazem parte do seu universo. São mundos muito distintos que habitam em um mesmo sistema solar; mas, não manifestam uma interação além do eventual, do esporádico.
Sabemos que ninguém nasceu para ser uma ilha; por isso, desenvolvemos a linguagem, a comunicação, os comportamentos interativos. Tudo com vistas a tecer laços que sejam ampla e altamente agregadores de estímulos evolutivos. As relações humanas precisam nos impulsionar adiante, no sentido de nos trazer bem estar físico, mental, afetivo e espiritual. É preciso encontrar eco nessa convivência, denominadores comuns, porque solidão a dois nunca é um resultado positivo. Sabe, convivência a base de conversas rasas, de divergências constantes de opinião, de falta de sentido e significado, só leva a um vazio infinito para ambas as partes.
Por mais difícil que seja estabelecer uma análise crítico-reflexiva sobre as nossas convivências, isso é fundamental e salutar. Devemos almejar mais do que uma legião de simples conhecidos ou de colegas. Isso seria como se envaidecer com likes e seguidores anônimos nas redes sociais. Mesmo sabendo que seres humanos não são carimbos, a ideia é sempre buscar gente com quem se tenha mais afinidades e possibilidades de ser e estar em um nível de proximidade e realidade capaz de, efetivamente,  temperar a convivência.
No fundo, todo mundo tem lá as suas esquisitices, as suas neuroses, as suas manias, as suas regras,... que, não mais do que de repente, podem estar na mais plena sintonia com as nossas. Frente a esse “espelho” nos enxergamos melhor, nos entendemos melhor, nos tornamos pessoas melhores. Essa ideia de opostos que se atraem é furada. A própria Física já deixou isso bem claro. Talvez, por isso, Clarice Lispector tenha tanta razão ao escrever “Já chamei pessoas próximas de “amigo” e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim”.
A arte da convivência, da afinidade, sublima os rótulos. Somos agregados pelo imaterial da essência humana que nos habita. Diferentes, mas iguais; na afinidade somos convidados a olhar para si e para o mundo com a mesma avidez, a mesma curiosidade, a mesma intensidade,... Vez por outra divergimos sobre o mesmo tapete da convergência, em uma capacidade infinita de rir e crescer, abraçados sob o manto do respeito recíproco. Ideias que se completam. Sonhos acalentados conjuntamente. De modo que, segundo o poeta Mário Quintana, “Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa é o que ficou deste minuto, desta hora... desta vida...”.