Reflexões sobre o desserviço da ignorância
Reflexões
sobre o desserviço da ignorância
Por
Alessandra Leles Rocha
Do mesmo modo que a
“adultização infantil” 1 é um
problema social, permitir que adultos interfiram no processo natural da
infância também é. Se a vida humana é
composta de etapas bem definidas – infância, adolescência, fase adulta e
velhice -, sinal de que há razões importantíssimas e não se deve, portanto,
atropelar o processo em nome disso ou daquilo.
Sendo a infância o
começo de tudo, isso significa que permiti-la acontecer fluidamente é essencial
para que as próximas fases também aconteçam assim. Tanto que o Fundo das Nações
Unidas para a Infância (UNICEF) estabeleceu em 1959, a Declaração Universal dos
Direitos da Criança 2, a qual
proclama em seu 2º Princípio que “a
criança gozará de uma proteção especial e beneficiará de oportunidades e
serviços dispensados pela lei e outros meios, para que possa desenvolver-se
física, intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e
normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com
este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse
superior da criança”.
Mas acima de leis e
regras, o bom senso deve perguntar: o que deseja uma criança? Milhões de coisas
tanto no campo material quanto subjetivo. Mas, certamente, a mais importante
delas se resume em ser feliz. Criança sem sorriso no rosto chama atenção para a
existência de algum problema. E o que traz essa felicidade é a leveza em ser. O
que quer dizer a liberdade, a criatividade, à imaginação, a inventividade. A
infância é o momento de construção do alicerce que sustenta o adulto do amanhã;
por isso, ela é momento de questionamento intenso por parte dos pequenos.
Recentemente uma
empresa do ramo alimentício 3 lançou
um anúncio que aponta para a importância do “por que”, ou seja, do
questionamento, da dúvida. E foi muito interessante, na medida em que nos trouxe
a reflexão sobre o papel desbravador que os questionamentos infantis produzem
na vida humana.
O meio em que se
insere o individuo lhe proporciona apenas parte do seu conhecimento. O restante
vem dessa descoberta autônoma e autoral que cada um de nós realiza durante a
própria existência e que se inicia mais avidamente na infância. Crianças
precisam e devem ser sempre estimuladas a pensar, a criar, a inventar. É
fundamental que constituam a sua percepção do mundo a partir de seus próprios
olhos e não, daqueles ao seu redor.
Nesse sentido, as
expressões artísticas têm um papel fundamental no universo infantil;
especialmente, a literatura. Os livros vão fornecer o vocabulário, a
organização das ideias, as ilustrações, e tudo mais que possa contribuir na
constituição das ferramentas linguísticas desse ser em formação. E no que tange
à literatura infantil e infanto-juvenil, ela estabelece uma ponte riquíssima
entre os seus leitores e o mundo que se descortina diante dos seus olhos.
É na perspectiva
lúdica, imaginativa, que eles vão se descobrindo e interagindo com as histórias
e gêneros textuais – quadrinhos, poesias, contos, fábulas, ficção, humor.
Inclusive, esse segmento da literatura brasileira já trabalha no contexto de
adequação etária tanto para facilitar a escolha por parte dos pais (ou
responsáveis) e das escolas, quanto propiciar temáticas que favoreçam e
estimulem a leitura do seu público alvo.
E quão diferentes
são as crianças e adolescentes do século XXI! Constatação um tanto óbvia, mas
certamente necessária, diante da onda de retrocesso cultural que tenta se
instalar no país. Conectados ao que há de mais high tech, desde o berço, a imaginação e a criatividade deles já
alçou voos além do real. Por isso, eles estabelecem leituras contextualizadas a
um universo literário intenso e repleto de ação e de fantasia capaz de
transitar pelo o que está dentro e fora das telas dos leitores de livros
digitais, ou mesmo, das velhas e boas páginas de papel.
Os reflexos disso já
podem ser sentidos, na quantidade de adolescentes e jovens adultos dedicados à
construção de jogos eletrônicos ou como, competidores consagrados desses. Para
isso, eles precisam ler muito, conhecer a fundo esse universo, desenvolver as
histórias, os enredos, a dinâmica dos jogos, enfim... Muitos, inclusive, já
estão fazendo fortuna nessa área com tão pouca idade. O segredo desse sucesso é
simples, eles não foram tolhidos no seu
desenvolvimento cognitivo e intelectual. Puderam ser. Puderam ler. Puderam
realizar. Puderam desbravar.
Crianças e
adolescentes livres de preconceitos, de amarras ideológicas e comportamentais,
se tornam seres humanos. Grandes inventores. Grandes cientistas. Grandes
pesquisadores. ... Pergunte a qualquer um deles sobre a importância da leitura
para a sua criatividade, curiosidade, inventividade, e vai perceber que todos
são unânimes sobre isso: foram crianças e adolescentes inquietos,
questionadores, curiosos.
Como disse Maria
Tecla Artemisia Montessori - educadora, médica e pedagoga italiana -, “a verdadeira educação é aquela que vai ao
encontro da criança para realizar a sua libertação”. Estamos, então, querendo proteger quem de
que? Sua leitura do mundo e do livro é tão singular quanto à de qualquer
pessoa. Não podemos imputar principalmente às crianças, o preconceito, a
intolerância ou outro valor qualquer porque na fase adulta acreditamos que seja
assim ou assado. Nem fazer com que escritores e editoras de livros infantis e
infanto-juvenis escrevam livros para o seu público desconsiderando os
interesses do mesmo.
Isso é uma ameaça à
infância e a adolescência da atual e das futuras gerações. Primeiro porque tira
deles o direito de ler, de sonhar, de imaginar. Segundo porque limita seus
conhecimentos linguísticos, reduzindo-os a um ensino de frases soltas, análises
desconexas, conjugações de verbos infinitas, que no fim das contas os distancia
efetivamente do conhecimento sobre a língua materna. Terceiro porque esfacela a
capacidade de entendimento e, consequentemente, de argumentação, de construção
de histórias, de enredos. Quarta porque desestimula o surgimento de novos
talentos para a literatura brasileira; bem como, de público leitor. E por fim, porque nos apequena enquanto
nação, subvalorizando e renegando as nossas potencialidades artístico-culturais
diante do mundo.
Mas não bastassem
todos esses argumentos, enquanto os livros se tornam “inimigos do Estado
brasileiro” e os episódios lastimáveis de recolhimento e apreensão deles preenchem
as manchetes nacionais 4,
deixamos de perceber as verdadeiras mazelas que aviltam as crianças e os
adolescentes brasileiros e que deveriam ser prioritariamente combatidas.
Violência física e sexual. Educação precária. Desassistência em termos de saúde.
Miséria. Subnutrição. Abandono. Etc.etc.etc.
E como tudo isso não
cabe em caixas de papelão, não pode ser guardado em depósitos esperando o
esquecimento e, nem tampouco, pode ser incinerado ou transformado em papel
higiênico 5; desqualificar, proibir, condenar,
subtrair os livros se torna a ferramenta de ação dos ignorantes, ou seja,
daqueles que não dispõem de conhecimento e/ou cultura, por falta de estudo, experiência
ou prática. Por isso é que, segundo Platão 6, “podemos facilmente perdoar uma criança que
tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”.
3 Quanto mais
você sabe, melhor a Sadia fica - https://www.youtube.com/watch?v=VidUzwrbeP8
6 Platão (427 a.C. – 347 a.C.) – filósofo
grego da Antiguidade, considerado um dos grandes pensadores da história da Filosofia.
