A vulgaridade do espetáculo dantesco
A
vulgaridade do espetáculo dantesco
Por
Alessandra Leles Rocha
A identidade de um
país é manifesta de várias maneiras. As expressões artístico-culturais. A religiosidade.
Os símbolos nacionais. Mas, também, por sua autoridade governamental maior. A liturgia
desse cargo exige um senso de responsabilidade descomunal seja dentro das
fronteiras nacionais ou fora delas. Por isso, a fala proferida pelo Presidente,
ontem 1, ainda permanece repercutindo de modo
tão desconfortável e estarrecedor.
Infelizmente o episódio
não foi o único. Vivemos tempos de uma verborragia incumbida da
desqualificação, depreciação e atentado direto à dignidade humana, profissional
e institucional por parte de membros do governo federal ou ligados direta ou
indiretamente a ele. E diante disso foi impossível não me recordar das palavras
de Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel
de Literatura, em seu livro “A civilização do espetáculo: Uma
radiografia do nosso tempo e da nossa cultura” 2.
Dentre as discussões
apresentadas na referida obra, Llosa tece considerações sobre o trabalho de
Michel Foucault a respeito das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar
o corpo social, instalando sutis, mas eficazes formas de sujeição e alienação,
a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos
grupos sociais dominantes.
Segundo ele, “A civilização pós-moderna desarmou moral e
politicamente a cultura do nosso tempo, e isso explica em boa parte porque
alguns dos “monstros” que acreditávamos extintos para sempre depois da Segunda
Guerra Mundial, como o nacionalismo mais extremista e o racismo, ressuscitaram
e estão de novo rondando no próprio coração do Ocidente, ameaçando mais uma vez
seus valores e princípios democráticos” (LLOSA, 2013, p.77).
Desse modo, a recorrência
da vulgarização discursiva por parte de autoridades, sobretudo do Presidente da
República, é uma estratégia tóxica para ofuscar aquilo que é realmente do
interesse da população. Enquanto os despautérios proferidos ganham as manchetes
e o espanto coletivo, questões importantes como a crise no INSS, a violência
contra os indígenas ou a demissão de milhares de funcionários ligados à Petrobrás
ficam à margem.
Não foi à toa que
Mário Vargas Llosa escreveu: “na
civilização do espetáculo, infelizmente, a influência exercida pela cultura
sobre a política, em vez de exigir que esta mantenha certos padrões de excelência
e integridade, contribui para deteriorá-la moral e civicamente, estimulando o
que possa haver nela de pior, como por exemplo, a mera farsa. Já vimos que, no
compasso da cultura reinante, a política foi substituindo cada vez mais ideias
e ideais, debate intelectual e programas, por mera publicidade e aparências. Consequentemente,
a popularidade e o sucesso são conquistados não tanto pela inteligência e pela
probidade quanto pela demagogia e pelo talento histriônico” (LLOSA, 2013,
p.117-118).
A quem, então, satisfaz
esse espetáculo dantesco? Exibições explícitas de extremismo chulo. De Misoginia.
De Sexismo. De Racismo. ... A claque? Mas,
ela é somente uma parcela ínfima de cidadãos do país! É; não há como compreender
nem justificar, então, insultos dessa natureza como questão de interpretação linguística.
As palavras foram abertamente levianas, ofensivas, desrespeitosas, e acrescidas
de um padrão repetitivo incontestável.
Somos ex-colônia e
nossa imagem não melhorou muito nesses pouco mais de quinhentos anos. Nossa identidade
não significa muito lá fora. Quando não deportam, matam, humilham, destratam,
desrespeitam,... Agora, se começamos por
nós mesmos a distribuição gratuita da “desmoralização geral”, aí que a situação
se torna insustentável. Não haverá argumentos suficientes para descontruir uma
representação tão ruim, tão desprezível.
Como disse o
dramaturgo e poeta alemão, Eugen Bertholt Friedrich Brecht, “Primeiro levaram os negros, mas não me
importei com isso, eu não era negro! Em seguida levaram alguns operários, mas
não me importei com isso, eu também não era operário! Depois prenderam os
miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável! Agora,
levam-me a mim, mas já é tarde! Como eu não me importei com ninguém, ninguém se
importa comigo!”. Portanto, paremos de “olhar para o próprio umbigo” e pensemos
mais seriamente a respeito.
2
LLOSA, M. V. A civilização do espetáculo:
Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro: Objetiva,
2013. 207p.
