Eu falo, tu falas, ele fala,...
Eu
falo, tu falas, ele fala,...
Por
Alessandra Leles Rocha
Por mais que as
evidências apontem para uma desaprendizagem da convivência e da comunicação
entre os seres humanos, ainda acredito nas palavras, no diálogo. As
polarizações que emergem diariamente e propulsionam ruídos absurdos não fazem
frente a uma boa argumentação. Talvez, esteja aí o ponto nevrálgico da questão.
Para argumentar é
preciso conhecer bem mais do que a superfície limitante da questão. É preciso
ouvir. É preciso ler. É preciso analisar. É preciso refletir. Não é sair por
aí, seguindo consensos vãos e tendenciosos de uns e outros. Chegar a um
denominador comum é trabalho individual mental. Que no fim das contas é
exatamente o que garante a consistência, a segurança e a credibilidade para se
entrar em cena na comunicação.
E na carência desse
ato tão primoroso da capacidade intelectual e cognitiva humana, o mundo padece
os seus dias de caos. Ninguém ouve. Todos falam. Ninguém se entende. Desse ponto
de ebulição para uma confusão, um simples piscar de olhos. A fúria que é irmã
da irracionalidade toma conta do espaço e salve-se quem puder.
Alguns tentam
explicar esse deplorável fenômeno valendo-se da pressa contemporânea, do
imediatismo que rouba o bom senso. Mas, eu discordo. Nada justifica enaltecer a
ignorância e subjugar a razão, seja de que maneira for. Se os ânimos andam lá,
meio exaltados, cala-te. Espera o tempo dar jeito, trazer calma e lucidez. Comunicação
com nervos à flor da pele nunca acaba bem.
A dica nesses casos
é escrever. Escreva... Rabisque ideias e palavras, até as impronunciáveis; já
que o papel não sai contando nada por aí. Escrever tem isso de bom, organiza a
mente, as palavras, as emoções. Sem contar que para escrever há de se lapidar
os argumentos.
Quando eu falo
sobre isso, imediatamente me recordo dos repentistas nordestinos e dos MCs. Quando
membros de um desses grupos musicais se desafiam em rimas improvisadas, nas
chamadas “batalhas”, as quais exigem um talento e uma criatividade descomunal, as
ideias são postas à prova. O embate se faz apenas pela genialidade das
palavras. Pontos de vista diferentes, divergentes; mas, que compreendem a importância
do diálogo.
Então, o resultado não
poderia ser diferente da tradução do mais alto grau de cultura, de cidadania,
de respeito, porque eles fazem da sua arte um pavilhão do seu cotidiano, da sua
realidade. Eles dão vez e voz para as suas demandas, as suas verdades, as suas
identidades, por meio de uma comunicação clara, forte e objetiva.
Por outro lado, já ouvi
de algumas pessoas que o imbróglio em que se transformou a comunicação contemporânea,
no fundo é mero constructo para silenciar uns aos outros, um instrumento de
controle social.
Tal justificativa
se ampara na tão desgastante arte de falar em meio ao desconfortante volume de ruídos
dispersos entre nós que faz com que muitos, de fato, vão se deixando calar, abstendo-se
de manifestar seus pensamentos e sucumbindo as distorções dos consensos. E se
desaprendem a falar, lentamente, desaprendem a pensar. Ficam inertes, imóveis,
calados...
Sem dúvida, uma observação
pertinente, embora, imersa em um mar verborrágico que insiste em nos rodear. Sim,
porque se há os que se entregam ao silêncio “cômodo”, imposto pelas conjunturas,
há os que falam pelos cotovelos, sem filtros, sem controle. Dão opiniões a
esmo. Falam, talvez, para não perder o hábito da anátomo-fisiologia vocal. O que
é, sem dúvida alguma, um desperdício das qualidades subjetivas humanas, ou
seja, do pensamento verbalizado e não verbalizado.
Já dizia a
escritora e jornalista norte-americana Mignon McLauglin, no século XX, “ouvimos apenas metade do que nos é dito,
entendemos apenas metade disso, acreditamos em apenas metade do que entendemos,
e lembramos apenas da metade do que acreditamos”.
Como se vê, mais do
que nunca saber se comunicar é preciso! Um comunicar que venha dotado de qualidade,
de habilidade, de competência, de respeito. Que nos agregue ao invés de nos
separar. Que nos fortaleça ao invés de nos destruir. Que nos edifique ao invés de
nos desqualificar. Que nos faça relembrar tudo o que é essencialmente
importante e que, por alguma razão, permitimos se perder no tempo. E,
especialmente, que jamais cobre adesão arbitrária aos consensos vãos e
tendenciosos.