Quando o assunto é amizade...
Quando
o assunto é amizade...
Por Alessandra Leles Rocha
Não importam os modismos quando o
assunto é amizade. O que importa para uma amizade é o querer de ambas as
partes. Isso porque, como disse o escritor, filósofo e poeta norte-americano,
Ralph Waldo Emerson, “a glória da amizade
não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da
companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém
acredita e confia em você”.
Se não houver uma disposição
descomunal para aceitar o outro como ele é, na sua essência, a amizade
simplesmente não flui. Quem já não sofreu as decepções diante de uma amizade
não bem sucedida?! Infelizmente, parece sina das relações humanas, o que inclui
a amizade, acontecerem sempre a partir de uma idealização, de um encantamento,
que ofusca o que há de melhor, de mais puro e, talvez, de mais sagrado nessa
construção humana. Mas, não é por isso, pelas experiências ruins que vamos
deixar de tecer esses laços.
De inúmeros filmes que assisti e
cuja temática envolve a amizade, o que mais me fez pensar foi Sex and the City,
justamente pela relação existente entre aquelas quatro mulheres – Carrie Bradshaw,
Samantha Jones, Charlotte York Goldenblatt e Miranda Hobbes. A amizade entre
elas não é uma propaganda de margarina. Há franqueza, sinceridade,
companheirismo, decepção,... em meio aos dias bons e ruins pelos quais todos
passamos; mas, sobretudo, existe um respeito e uma vontade de estar nessa
relação que faz dela algo verdadeiramente único e especial.
Vivemos tempos em que a humanidade
vive sob um constante esgarçamento da vida. Tudo parece efêmero, volúvel, em trânsito
constante. Parece existir, então, um
receio de comprometer-se com algo ou alguém. E, talvez, por esse movimento da
sociedade é que as amizades para algumas pessoas se tornaram possíveis apenas
no cinema. Mas, na minha percepção, isso não é verdade.
Pessoas entram e saem da nossa
vida. Esse é o fluxo natural. Mas, ele não necessariamente nos obriga a viver
sob uma transitoriedade relacional. Viver implica fundamentalmente em escolhas
e está nas mãos de cada pessoa se dispor a construir, a estabelecer uma relação
de amizade, que valha a pena ser chamada assim.
Afinal de contas, uma boa amizade
faz bem para saúde física e mental de qualquer ser humano. No equilíbrio das
nossas relações afetivas, não bastam apenas a família e os amores; os amigos
são o verdadeiro fiel da balança, na medida em que estar conosco é uma opção
voluntária sem precedentes. Daí se estabelece uma convivência que é muito mais flexível
aos protocolos e etiquetas do que qualquer outra, porque somos capazes de
aceitar o outro e de sermos aceitos se quisermos levar uma amizade adiante.
Por isso a amizade rompe com inúmeras
afetações, pudores e melindres. Com amigos nós podemos ser. Podemos estar.
Podemos parecer. Podemos continuar. Podemos ficar. Podemos nos tornar. Porque amizade
é, de repente, verbo de ligação. Nos ligamos ao inexplicável traduzido em
lembranças, em memórias, em momentos, em vida cotidiana que não se repete e é
sempre um estímulo maior para nos colocar de pé, especialmente quando a coisa
não vai bem.
Isso demonstra que uma amizade,
então, deveria estar acima das frivolidades atuais. Nessa onda de curtidas e seguidores,
que alguns chegam ao ponto de comprar para satisfazer a sua notoriedade cibernética,
a sua aceitação social, não importa que se tenha um amigo ou um monte deles, o
essencial é o que essa amizade realmente traduz em significado. Ah, e também não
importa se geograficamente perto ou não, porque para se definir uma amizade é preciso
estar disposto a compreender as mensagens além das linhas e entrelinhas de
qualquer distância.