Afinal, o Brasil é ou não é para amadores?

Afinal, o Brasil é ou não é para amadores?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Para se entender a história é preciso acompanhar a sequência de fatos que a encadeiam. Isso é básico! Todos já deveriam estar cientes disso! Portanto, não há como negar que os últimos anos da historicidade brasileira foram sim marcados por episódios que apontaram para uma escalada de retrocessos significativos. Algo bastante preocupante ou, pelo menos, deveria ser.

Entre 2019 e 2022, brasileiros e brasileiras puderam presenciar em termos ambientais, por exemplo, a mais profunda flexibilização das regras por meio de portarias e decretos.

Ocorreu o "Dia do Fogo" que representou uma ação coordenada de incêndios criminosos, entre os dias 10 e 11 de agosto de 2019, no estado do Pará.

Houve a paralisação do Fundo Amazônia que suspendeu mais de R$ 1 bilhão em doações da Noruega e da Alemanha destinados ao combate ao desmatamento.

Promoveram o esvaziamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a partir do corte expressivo no orçamento de fiscalização, redução na aplicação de multas ambientais e militarização de cargos diretivos.

Em relação à Educação e à Ciência, houve um contingenciamento de verbas, em 2019, o qual também repercutiu no enfraquecimento das agências de fomento; visto que, as bolsas de pós-graduação e fomento à pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sofreram reduções severas.

Sem contar a instabilidade institucional desencadeada por quatro ministros diferentes em quatro anos, gerando crises de gestão e denúncias que afetaram a continuidade das metas do Plano Nacional de Educação.

No setor cultural, esse período assistiu a um processo de desestruturação institucional e estrangulamento financeiro. Começando pela extinção do Ministério da Cultura (MinC), no início de 2019, o transformando em uma Secretaria Especial, inicialmente vinculada ao Ministério da Cidadania e depois transferida para o Ministério do Turismo.

De modo que as sucessivas trocas de comando, com sete titulares diferentes em quatro anos, geraram descontinuidade administrativa e paralisia de programas estratégicos; mas, também, uma redução drástica de recursos federais diretos, com paralização de seus mecanismos, e ataques diretos e censura ao setor.  

Contudo, a mais terrível das experiências do desmantelamento institucional do país aconteceu na área da Saúde. Diante da Pandemia de Covid-19, uma das maiores e mais complexas crises sanitárias da história mundial recente, a sua condução pelo governo foi marcada pelo atraso na compra de vacinas, na promoção do chamado tratamento precoce com medicamentos sem eficácia comprovada e as frequentes trocas no comando do Ministério da Saúde.

Isso sem falar, no aperto orçamentário estrutural que excluiu os gastos emergenciais e provisórios da pandemia, fazendo com que o orçamento real da saúde pública regular encolhesse ao longo do período.

Mas, não se pode esquecer da reafirmação do negacionismo científico como uma marca central da gestão federal, nesse período, com impactos profundos nas políticas públicas, tais como o discurso antivacinas e a hesitação vacinal, que incluíram as campanhas contrárias ao cartão vacinal e ao uso de máscaras.

O que explica porque razão, entre 2020 e 2022, o Brasil registrou mais de 29 milhões de casos confirmados e cerca de 690 mil mortes oficiais contabilizadas por COVID-19, tornando-se um dos epicentros globais da doença. Porém, vale lembrar que os números reais foram significativamente maiores devido a barreiras estruturais de testagem e diagnóstico durante a pandemia.

Portanto, dentro da perspectiva de direitos humanos e políticas sociais, o Brasil viveu além da pandemia, a situação da extinção de conselhos de participação social, logo no início de 2019, a partir do Decreto nº 9.759 que afetou diretamente dezenas deles, impossibilitando a participação da sociedade civil nas decisões políticas.

Fato que levou ao não financiamento das políticas identitárias, permitindo que as secretarias e os programas do setor operassem com orçamentos mínimos ou sofressem mudanças de escopo que esvaziaram as suas funções originais. Fato que acabou retornando o país ao Mapa da Fome.

Sim. Entre 2019 e 2022, o Brasil retornou e permaneceu no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (FAO/ONU), impulsionado pelos impactos econômicos, desmonte de políticas públicas de segurança alimentar e pela pandemia de COVID-19.

Nesse recorte temporal a subalimentação atingiu 4,1% da população brasileira, ou seja, cerca de 8,6 milhões de pessoas em estado de desnutrição. Já se esqueceu dos episódios extremos como a chamada Fila do Osso? Pois é, cidadãos formavam filas em açougues e frigoríficos para receber ou comprar restos de ossos bovinos, carcaças de frango e restos de peixe para tentar aplacar a fome.

Portanto, esse período foi marcado por uma severa crise socioeconômica, caracterizada pelo enfraquecimento de estruturas estatais, o impacto global da pandemia de Covid-19, inflação persistente e um expressivo aumento da vulnerabilidade social brasileira.  

De modo que a gestão posterior, diante desse cenário de “terra arrasada”, teve que implementar uma reconstrução. Fato que impede qualquer um de nutrir idealizações ou projeções miraculosas, tendo em vista de que reconstruir é bem mais complexo e árduo do que dar continuidade ao que já estava em curso.

Inclusive, não se pode esquecer de que nesse processo de reconstrução, o país ainda teve que enfrentar uma tentativa de golpe de Estado. Me refiro aos atos de 8 de janeiro de 2023, expressos por ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília/DF e enquadrados como crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Diante desse breve exposto, me causa espanto e estranheza que amostras populacionais ainda se permitam expressar, com certa aspereza, algum descontentamento ao governo em curso. É como se negassem ou desconsiderassem o cenário demasiadamente desafiador que foi enfrentado.  

Apesar de todos os pesares, muito foi feito nessa empreitada de reconstrução. Houve a aprovação da reforma tributária, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego, a retomada e ampliação de obras, o combate à fome, o recorde de cirurgias eletivas, a queda do desmatamento e a retomada da projeção internacional.

É, o Brasil retornou ao centro de debates multilaterais, exercendo o seu protagonismo na defesa da democracia e da soberania nacional, ainda que sob fortes ameaças neoimperialistas, que lhe impuseram elevadas tarifas comerciais.

Há de se admitir que são mais de 500 anos de história, os quais acumulam problemas e desafios, a serem enfrentados por cada governo que se estabelece como liderança.

Infelizmente, ainda somos um dos países mais desiguais do mundo, com grande concentração de renda e disparidades regionais marcantes, especialmente entre as regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste.

Ainda enfrentamos custos logísticos elevados, gargalos nos transportes e a necessidade de modernização tecnológica das indústrias.

Ainda somos confrontados por uma complexidade fiscal, que significa equilibrar o orçamento público, gerenciar a dívida interna e garantir a eficiência dos gastos públicos sem comprometer os investimentos essenciais.

Ainda precisamos superar os abismos de aprendizado entre a rede pública e a privada, além de alinhar o ensino técnico e superior às demandas do mercado de trabalho do século XXI.

Ainda se faz necessário expandir a infraestrutura básica de esgoto e água tratada para as periferias e áreas rurais, e fortalecer a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda persiste a luta para combater o crime organizado, o tráfico de influência e a corrupção, o narcotráfico, as milícias, a fim de reduzir os índices de violência urbana e promover uma reforma satisfatória no sistema prisional.

Ainda resiste o impasse de conciliar a força do agronegócio com a preservação ambiental, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

Ainda somos desafiados a aproveitar o enorme potencial de energia limpa para reindustrializar o país de forma sustentável. Enfim...

Assim, por mais indigesta que pareça a pergunta, temos que fazê-la: O Brasil é ou não é para amadores? Segundo as palavras de Contardo Calligaris, escritor, psicanalista e dramaturgo italiano radicado no Brasil:

“Veja a frase ‘O Brasil não é para principiantes’. Isso supõe que a nossa malandragem nos torna especiais e só interpretáveis por especialistas. Pelo contrário: o Brasil é para amadores e principiantes. Porque pagar e corromper é muito fácil. O difícil é construir uma coletividade em que haja leis, institucionalidade. O difícil é ser moral. Ser imoral é que é para principiantes. A malandragem é uma conduta moral de uma criança de nove anos. O difícil é crescer. Governar pagando o cara para votar comigo é que é amador. O profissional é construir um discurso que convença, é falar com o outro” 1.

Portanto, penso que se conseguirmos realizar esse questionamento, de certa forma, se tornará possível abandonar a autocomplacência e a romantização do jeitinho brasileiro, compreendendo que a verdadeira maturidade nacional exige abandonar práticas infantis em favor da responsabilidade ética, moral e institucional. Afinal, para satisfazer quaisquer expectativas de desenvolvimento e de progresso é fundamental essa reflexão.