Trabalho decente e crescimento econômico
Trabalho
decente e crescimento econômico
Por
Alessandra Leles Rocha
A história é sempre a mesma. Quando
a dinâmica da vida impõe certos reveses aos interesses das elites e oligarquias
dominantes, não demora muito para que essas pessoas encontrem seus “bodes expiatórios”
para culpar.
Para eles, a grande e
revolucionária ideia que surgiu durante a transição do feudalismo e consolidada
com a Revolução Industrial, a qual deu forma ao modelo capitalista clássico,
que é um sistema econômico baseado na propriedade privada, na livre
concorrência e na não intervenção do Estado na economia, não deveria enfrentar
quaisquer obstáculos.
Porém, toda regra está sujeita a
exceção. Assim, o modelo capitalista clássico não passou ileso às transformações
profundas decorrentes de inúmeras crises históricas, como a de 1929. O que significa
que elas alteraram profundamente a regulação estatal, as relações de trabalho e
a própria organização produtiva, transformando as crises locais em funções
sistêmicas globais.
Em linhas gerais, o modelo capitalista
desde sempre se viu precisando realocar seus recursos, ao mesmo tempo em que lida
com as consequências disso, ou seja, o desemprego, as falências, a abertura de
caminho para novas tecnologias, formas de consumo e novas geometrias do poder
econômico.
Acontece que não era esse o
panorama pensado inicialmente. Então, a promessa de que o capitalismo elevasse
o padrão de vida de todas as camadas sociais não se cumpriu. Apesar de o sistema
ter impulsionado a inovação e o crescimento da riqueza global, a distribuição
desigual dos benefícios abriu espaço para a discussão a respeito da sua
capacidade real de erradicar as vulnerabilidades sociais sem intervenções
diretas.
Apesar dos avanços, o crescimento
econômico desacompanhado de políticas sociais não resolve estruturalmente essas
vulnerabilidades. Nesse contexto, a concentração de renda impede que a riqueza
gerada chegue às camadas mais baixas, funcionando como um limite para o próprio
funcionamento da economia, reduzindo o dinamismo do mercado interno.
Em pleno século XXI, a população
economicamente ativa tem consciência de que as promessas de dignidade social e bem-estar
do modelo capitalista não se cumpriram, de modo que ela passa a não se
contentar com migalhas e novas promessas.
Estou falando do esgotamento da
promessa liberal, diante da precarização das relações de trabalho e da
concentração de riqueza nas mãos de uma ínfima parcela da pirâmide social, que
tem levado milhões de pessoas, inclusive no Brasil, a contestar tais promessas.
Seja por meio da resistência
sindical e as greves, utilizada para impulsionar melhores condições laborais,
redução da jornada de trabalho e proteção contra demissões arbitrárias,
combatendo a lógica de que o mercado se autorregula para o bem comum.
Por meio da criação de
cooperativas e empresas geridas pelos próprios trabalhadores, eliminando a
figura do patrão e distribuindo os resultados de forma mais justa.
Por meio da ocupações urbanas e
rurais que contestam a concentração de propriedades e a mercantilização de
direitos básicos, exigindo acesso à terra para moradia e produção de alimentos.
Afinal de contas, os alimentos
básicos que chegam diariamente à mesa do brasileiro, advém da agricultura
familiar que é a principal responsável por garantir o abastecimento de culturas
como feijão, mandioca e hortaliças. Enquanto o agronegócio se concentra em commodities
de exportação, tais como soja e milho, os pequenos produtores garantem a
diversidade no prato dos brasileiros.
Por meio do sindicalismo de
plataforma e suas novas lutas, em que os trabalhadores de aplicativos e da
economia baseada em trabalhos focados em contratos de curto prazo, projetos sob
demanda ou trabalho independente, se organizam para exigir direitos básicos e
reconhecimento de vínculo, contestando a precarização extrema gerada por novos
modelos de negócios.
Tudo isso significa, então, que o
recorte social contemporâneo traz consigo uma desconstrução dos velhos
paradigmas. A velha lógica perdeu sentido. O modelo tradicional de trabalho baseado
em horários rígidos, submissão a tarefas corporativas, baixas remunerações e
dedicação exclusiva contraria a necessidade do equilíbrio entre a vida pessoal
e o trabalho, a flexibilidade e a saúde mental.
O trabalhador contemporâneo busca,
portanto, um novo propósito. O que significa que há sim uma forte exigência de
que o trabalho tenha significado social e que os valores da empresa estejam
alinhados com os do funcionário, priorizando causas sociais e de sustentabilidade
ao contrário de centrar foco apenas no lucro. Além disso, ele recusa culturas
de trabalho tóxicas, exigindo limites claros que preservem a sua saúde física e
mental.
E tudo isso permite entender que a
culpa pelo desinteresse ou falta de engajamento do trabalhador, diante das ofertas
no mercado de trabalho, está na manipulação das condições laborais, na
precarização dos vínculos, na estagnação salarial real, na perda de direitos e
na uberização.
Portanto, ela não está nas
políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa Família, como afirmam
setores da elites e oligarquias brasileiras.
De saída, essa gente se esquece
de que essas políticas exigem condicionalidades como a frequência escolar e o acompanhamento
de saúde, reduzindo os custos de internações hospitalares e elevando o capital
humano a longo prazo, por exemplo.
Além disso, por atender
populações de baixa renda que tendem a gastar todo o recurso recebido, o
programa injeta dinheiro diretamente na base da cadeia produtiva, garantindo
forte circulação de capital e redução da pobreza extrema.
Segundo dados do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), casa R$1 investido no programa se
transforma em R$2,40 no consumo das famílias e adiciona R$ 1,78 ao Produto
Interno Bruto (PIB) nacional.
De modo que esse dinheiro
recebido é utilizado majoritariamente em mercados, farmácias e pequenos
comércios próximos às residências, garantindo que o valor continue circulando
no próprio município.
Por isso, as políticas sociais de
transferência de renda atuam apenas como uma rede de proteção temporária que
permite a sobrevivência enquanto se procura oportunidades decentes de trabalho.
O que significa postos de
trabalho dignos, com remunerações justas e livres de discriminação, que
promovam a garantia de segurança no local de trabalho e respeito às leis
trabalhistas, que amparem os trabalhadores e suas famílias, e que promovam o
diálogo social entre governos, empresas e trabalhadores. Como está estabelecido
no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8) da Organização das Nações
Unidas (ONU).
Enfim, as políticas de transferência
de renda compensam as desigualdades estruturais de acesso à renda, à educação e
à saúde, permitindo a sobrevivência digna de populações vulneráveis. Contudo,
vale ressaltar que elas não são soluções definitivas isoladas.
Para alterar o abismo
socioeconômico estrutural, elas precisam operar em conjunto com políticas que
promovam a inclusão produtiva, gerem empregos, garantam direitos trabalhistas e
ofereçam serviços públicos de qualidade, permitindo uma emancipação sustentada
das famílias.
Antes de emitir qualquer opinião sobre esse assunto, lembre-se de que as políticas de transferência de renda possuem um custo fiscal consideravelmente inferior aos montantes estimados de desvios de corrupção e à fuga de capitais para paraísos fiscais. Portanto, apesar de representarem orçamento na casa de bilhões de reais, as estimativas de perdas ilícitas de capitais representam centenas de bilhões, em muitos casos.
