Aquilo que passa despercebido das estatísticas
Aquilo
que passa despercebido das estatísticas
Por Alessandra
Leles Rocha
Não se engane, o feminicídio não
é um evento isolado ou uma explosão de violência gratuita, mas o ápice de um
processo de dominação e controle exercido sob uma lógica patriarcal. Desse
modo, antes dele acontecer, há uma progressão de outras violências.
Geralmente começa pelo isolamento
social, o controle de redes sociais, a vigilância constante e a depreciação da
autoestima da mulher. Depois, o controle do dinheiro, a destruição de
documentos ou de objetos de valor para criar dependência. Em seguida, empurrões,
tapas e agressões que escalam em gravidade, inclusive, com a imposição de
relações sexuais não desejadas como forma de poder. Então, o último estágio é o
feminicídio, o assassinato da mulher pela condição de ser mulher. E a tendência
de alta no número de casos persiste ano a ano.
E a pergunta mais comum sobre
isso é: por quê? Porque o feminicídio e a misoginia são construções ideológicas
do patriarcado, ideologia secular que molda a cultura e as instituições,
educando homens para a dominação e mulheres para a submissão.
Nesse sentido, o ódio ou desprezo
pelo feminino, alimentado por valores que enaltecem a violência e enxergam a
mulher como ser inferior ou como um objeto, reflete como o pensamento social
estruturado na permissividade com a violência de gênero, perpetua uma série de desigualdades
historicamente.
Daí essa estrutura sociocultural reafirmar
continuamente a hierarquização dos gêneros, colocando os homens em posição de
poder e propriedade, enquanto transforma o corpo feminino em alvo de controle e
eliminação, baseando-se em valores de dominação e posse. O que aponta para a
necessidade de ruptura desconstrutiva dessa base ideológica, caso se pretenda,
de fato, resolver a manifestação concreta das violências contra as mulheres.
Em linhas gerais, isso significa
que a estrutura social como um todo, ou seja, homens e mulheres, precisam
desenvolver uma outra perspectiva sobre a sua importância social. Infelizmente,
o patriarcado estabeleceu normas que definiram, até aqui, o que é ser homem e ser
mulher na sociedade.
Historicamente, essas normas foram
internalizadas por todos através da família, da escola e das mídias. Haja
vista, por exemplo, porque mulheres também reproduzem discursos misóginos, tais
como a rivalidade feminina ou a culpabilização da vítima, em razão da
construção do pensamento pela perspectiva patriarcal.
É nesse viés, então, que se torna
fundamental o papel da SORORIDADE. Para quem desconhece o conceito, a
sororidade é a manifestação da união e da solidariedade entre mulheres, baseada
na empatia e no compromisso ético para combater o patriarcado.
Assim, através dela a sociedade
se habilita para desconstruir a violência de gênero ao romper com a rivalidade
feminina imposta, fortalecendo as redes de apoio, de acolhimento e de combate à
naturalização de violências estruturais.
Estamos falando, então, sobre
substituir a competição pela colaboração, fortalecendo a resiliência e a
autonomia feminina a fim de contribuir para uma sociedade mais justa, com maior
participação política e decisão das mulheres, impactando positivamente a
estrutura social.
Permitindo, portanto, uma
reelaboração da saúde social, ou seja, da capacidade dos indivíduos criarem,
manterem e nutrirem relações interpessoais saudáveis, promovendo um sentimento
de pertencimento e coesão comunitária.
Desse modo, quando as mulheres se
unem e rejeitam comportamentos misóginos, elas forçam o sistema social a se
reequilibrar, permitindo que o homem abandone o papel de agressor ou de dominante
para existir de forma mais humana.
Por isso, a sororidade ao estabelecer
novos padrões de valorização e respeito cria um ambiente social onde a
violência deixa de ser uma moeda de troca aceitável para a manutenção do status
quo vigente.
E se não há a inferiorização
feminina que faz com que as mulheres sejam dominadas, o impulso da violência
perde a sua função estrutural, beneficiando a saúde mental e o comportamento
dos homens, que deixam de ser escravos dessa gravidade de opressão, oriunda de uma
necessidade histórica de validação através do poder.
Segundo a escritora nigeriana Chimamanda
Ngozi Adichie, “Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar
livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos
outros”.
Portanto, ao mudar a forma como
as mulheres se relacionam entre si e com o mundo, a sociedade descortina um
novo limite ético que convida a todos os atores sociais a abandonarem a
violência como linguagem única e universal.
Afinal, “A linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos”, desse modo, “Imagine como seríamos mais felizes, o quão livres seríamos para sermos nós mesmos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero” (Chimamanda Ngozi Adichie).
