Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.
Tudo
começa pelo começo. Com a violência não é diferente.
Por Alessandra
Leles Rocha
De todos os lados nos chegam
relatos de violência diariamente. Alguns falam em uma epidemia do ódio. Outros,
de um retrocesso à incivilidade, à barbárie humana. Bem, adjetivos para tentar
explicar tal fenômeno de nada adiantam. De modo que resolvi parar, pensar, a
partir da construção de uma linha de acontecimentos, os quais me impactaram
bastante.
A impressão que se tem é de que a
vida humana perdeu seu valor. Mata-se qualquer um. Por qualquer motivo, sob
qualquer justificativa, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar,
enfim. Então, de repente, essa brutalidade descompensada, apesar de toda a sua
crueldade e perversidade, merece ser olhada nos detalhes.
Considerando que qualquer um,
independente do gênero, da raça, da religião, da escolaridade, do status socioeconômico,
pode ser a bola da vez, a análise deve partir do início. Não há como discordar que a infância perdeu a
sua aura de inocência, de alegria, de blindagem frente aos males do mundo. Ser criança
está cada vez mais difícil e complexo.
Em 2016, o documentário O COMEÇO
DA VIDA, apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e
dirigido por Estela Renner, não só mostrava a importância fundamental dos
primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil, como destacava que o
afeto, as relações amorosas e os ambientes seguros moldam o cérebro e a
personalidade da criança, sendo crucial para o seu futuro e o da sociedade.
Mas, o que parece, olhando a
realidade contemporânea da infância, é que houve um desvirtuamento ético/moral,
em relação a responsabilidade, ao comprometimento, a disponibilidade, que são os
pilares a sustentar a maternidade e a paternidade, contrapondo-se totalmente ao
que propõe o referido documentário.
Chegou-se ao ponto em que a violência
contra a infância não exime nem os recém-nascidos! Sim, crianças, em diferentes
faixas etárias, são expostas a uma realidade de negligências, de abandonos, de
descuidos, que escalam rápida e vertiginosa para situações de humilhação, desvalorização
da autoestima, ameaças, agressões, castigos físicos severos, queimaduras e violência
sexual.
Acontece que a infância é o alicerce
da vida humana. São as experiências nessa fase que determinam o que seremos como
adultos. E na infância, a identidade não está pronta! Ela é refletida, então,
pelo olhar dos “cuidadores”.
A criança começa a entender quem
é a partir do afeto, da validação e das palavras de quem as cerca. Então, elas despertam
a necessidade do pertencimento, em decorrência dos vínculos de apego construídos,
muitas vezes, de maneira muito frágil.
Nesse cenário, a formação
psicoemocional aponta que se houver negligência, descuido, desatenção, a base
pode ser de medo e instabilidade. Algo que se reflete através da capacidade de nomear
e lidar com as emoções, seja frustração, raiva, tristeza.
Desse modo, o seu comportamento
se torna, em grande parte, um reflexo de padrões aprendidos dentro do meio
social em que estão inseridas e por mecanismos de defesa criados instintivamente.
A criança, então, acaba por replicar dinâmicas de resolução de conflitos e
hábitos sociais que experenciou.
Diante dessas considerações, o
que é possível aferir é que as deformidades sociocomportamentais e
psicoemocionais, as quais um indivíduo é exposto na sua infância, reverberam
até consolidar um adulto repleto de insatisfações, traumas, bloqueios, neuroses
e violências.
Em muitos casos, sem a
oportunidade de assistência profissional, ainda na infância, o quadro só tende
a se cronificar e se intensificar sem possibilidades de reabilitação.
Acontece que sem uma proposta de transformação
para esses indivíduos, a sociedade, querendo ou não, terá que enfrentar os
desajustes sociais carregados por eles.
Começando pela convivência com
uma legião de pais e mães despidos de quaisquer competências, habilidades e
talentos para a criação de um filho. Sim, porque tanto o maternar quanto o
paternar vão muito além de condições materiais.
O essencial para o exercício desses
atos reside no subjetivo, na capacidade de cuidar, de proteger e de educar;
portanto, indo além do laço biológico para criar um vínculo afetivo.
E é aí que a situação complica,
porque milhares de pessoas não trazem essa possibilidade de realização. Isso significa
que a humanidade, que a sociedade brasileira, que todos nós, estamos diante de
um desafio que demandará muito tempo para ser enfrentado.
Não, não é dá noite para o dia. Serão
décadas e décadas debruçados sobre a necessidade urgente de reconstruir a
realidade da infância.
Isso quer dizer tecer uma rede de
proteção a elas contra as violências, os desastres, a pobreza e a exploração,
porque investir na infância não é apenas uma questão social, mas também
econômica, na medida em que traz retornos para a sociedade ao criar indivíduos
mais saudáveis e capacitados.
Mas, em paralelo a esse processo,
é preciso resgatar a humanidade dentro de seres humanos que não conseguiram,
até agora, saber quem são, como se sentem, porque agem dessa ou daquela forma.
As violências contemporâneas
possuem sim, componentes profundos de insalubridade mental, ocorrendo tanto
como causa quanto como consequência de transtornos psicológicos, muitas vezes,
herdados em decorrência da própria infância.
Por isso, para falar, debater e
resolver as violências contemporâneas não tem como fugir dessa linha
sociotemporal, ou seja, da infância à fase adulta.
Lembre-se das palavras da
escritora estadunidense, Veronica Shoffstall, “Aprende que há mais dos seus
pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança
que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia
se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de
estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel”.
Porque elas, de alguma forma, podem
resgatar em você a consciência de que toda criança tem direitos, segundo consta
da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Organização das nações
Unidas (ONU), em 20 de novembro de 1959.
Talvez, assim, as crianças que
vierem a nascer, de agora em diante, nascerão em um mundo mais belo, mais
justo, mais humano. Aconchegadas pelo afeto, o carinho, os cuidados. Sem barulhos
de explosões, de tiros, de bombas, de gritos. Protegidas em lares dignos. Distantes
da insegurança alimentar, da pobreza e da insalubridade. Próximas do lazer, do
esporte e da cultura.
Afinal, a grande verdade dessa vida é que “Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento” (Albert Camus - Prêmio Nobre de Literatura em 1957).
