Sob o pretexto da excepcionalidade sobrevive a necropolítica ambiental

Sob o pretexto da excepcionalidade sobrevive a necropolítica ambiental

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Tratar catástrofes ambientais como EXCEPCIONALIDADE, não muda a história. O recrudescimento dos eventos extremos do clima é um fato incontestável. Não são episódios isolados, fortuitos; mas, uma série de respostas naturais ao desequilíbrio que a raça humana vem impondo ao meio ambiente, ao longo de séculos.

A partir da 1ª Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, quando o uso e a ocupação dos espaços geográficos naturais aconteceu de maneira imprevidente e não criteriosa, iniciou-se a escalada do desrespeito aos princípios biológicos. Começando pelo equilíbrio.

No entanto, frente aos constantes movimentos de industrialização somados à urbanização e à expansão das fronteiras agrícolas ocorridos, ao longo de quase três séculos, a incapacidade ambiental de conseguir adaptar-se aos novos cenários e garantir o equilíbrio tornou-se realidade.

Veja, o uso e ocupação do solo diz respeito diretamente à organização social do espaço. Portanto, diz respeito as relações de poder, as desigualdades, a cultura, as interações humanas; mas, particularmente, aos impactos gerados sobre o ambiente, na expressão de seus mais diversos ecossistemas e ciclos biológicos. O que em síntese significa a materialização da perda de biodiversidade, o desmatamento, a poluição da água, ar e solo, e as mudanças climáticas.

Para uns e outros, por aí, pode parecer pouco; mas, não é. A dimensão negativa dessas manifestações, na realidade humana contemporânea, aponta para uma crise civilizatória que compromete a sobrevivência, a economia e o bem-estar social.

Afinal, a verdade é uma só, a humanidade não se preparou para um revés dessa magnitude e está diante, portanto, de questões a serem equacionadas, as quais não sabe por onde começar. Iludidos por todas as promessas de desenvolvimento e progresso, os seres humanos esqueceram de observar o que era realmente essencial.

Desse modo, o temporal que atingiu as cidades da Zona da Mata entre a noite da última segunda-feira e a madrugada desta terça-feira, em Minas Gerais, não deixa dúvidas a respeito. Foram volumes pluviométricos descomunais, que caíram sobre a região em um intervalo de tempo relativamente curto, impondo-se de maneira devastadora sobre o modo com o qual aquele espaço geográfico tem sido usado e ocupado pela população.

É, não há mais como contemporizar essas catástrofes socioambientais! Os conhecimentos em torno do uso e ocupação geográfica não se alinham à realidade contemporânea dos eventos extremos do clima. Edificações são destruídas como se fossem de papel. Telhados são varridos pela força dos ventos sem qualquer resistência. As tempestades de raios representam uma ameaça crítica e crescente no país. Os deslizamentos de encostas refletem as ocupações irregulares, o desmatamento e as falhas na infraestrutura urbana. O assoreamento mostra o quão rasos se encontram os cursos d’água, possibilitando a ocorrência de transbordamentos rápidos e inundações urbanas. ...

Acontece que tudo isso já é de conhecimento público, há décadas. Não somente dos acadêmicos e pesquisadores, em todo o Brasil; mas, dos próprios gestores públicos, representantes do espectro político-partidário nacional e da população em geral.

Os veículos de informação e de comunicação, tradicionais e alternativos, estão repletos de coberturas de eventos extremos do clima. Reportagens que traduzem o luto de diferentes populações, ao mesmo tempo em que causam indignação e vergonha diante do descaso e da inação governamental, mascaradas pela desfaçatez das promessas vazias.

Infelizmente, é preciso reconhecer que a pauta das emergências climáticas caiu como uma luva para as pretensões dos projetos necropolíticos que se distribuem Brasil afora. Sei que já trouxe em outros escritos a definição de necropolítica; mas, é sempre bom relembrar.  

Trata-se do “Uso do poder político e social, especialmente por parte do Estado, de forma a determinar, por meio de ações ou omissões (gerando condições de risco para alguns grupos ou setores da sociedade, em contextos de desigualdade, em zonas de exclusão e violência, em condições de vida precárias, por exemplo), quem pode permanecer vivo ou deve morrer. [Termo cunhado pelo filósofo, teórico político e historiador camaronês Achille Mbembe, em 2003, em ensaio homônimo e, posteriormente, livro.]” 1.

Sim, o que está bem diante do nariz, então, é uma necropolítica de viés ambiental, climática. A gestão política da morte por meio da negligência ou ação do Estado diante de eventos extremos do clima, tem exposto populações inteiras; sobretudo, as parcelas mais frágeis e vulneráveis, a riscos fatais.

Sob a justificativa da EXCEPCIONALIDADE, os agentes e gestores públicos tentam se eximir das responsabilidades quanto às decisões estruturais que sacrificam vidas em prol de interesses econômicos e neoliberais.

Contrariando todo o conhecimento científico disponível, esses eventos extremos são tratados, então, como desastres naturais para mascarar a falta de adaptação e infraestrutura, naturalizando a morte de grupos específicos da população, em razão da historicidade que permeia a territorialidade do risco.

Portanto, não há como negar que a necropolítica em relação aos eventos climáticos transforma a crise ambiental em um mecanismo de sacrifícios humanos, onde a omissão do Estado se reflete na determinação de quais vidas podem e merecem viver.