JANEIROS ...
JANEIROS
...
Por
Alessandra Leles Rocha
6 de janeiro de 2021. Ataque ao Capitólio,
a sede do Legislativo, em Washington DC. 08 de janeiro de 2023. Invasão e
depredação das sedes dos Três Poderes - Congresso Nacional, Palácio do Planalto
e Supremo Tribunal Federal -, em Brasília, DF. 3 de janeiro de 2025. Agressão
militar dos EUA, com ataques e explosões em Caracas, resultando na captura do
presidente venezuelano. ...
Coincidência? Talvez sim, talvez
não. O que não é coincidência é o fato de serem ações capitaneadas pela
ultradireita estadunidense, com o apoio dos demais vieses da Direita global.
Ora, é de conhecimento público as
pretensões da ultradireita na contemporaneidade, as quais se concentram na
consolidação de um poder institucional estrutural, com mudanças profundas e
capazes de redefinir a ordem internacional e as bases da democracia liberal.
Desse modo, o que a ultradireita,
seus eleitores, apoiadores e simpatizantes pretendem ver consolidado é o
enfraquecimento do multilateralismo e das instituições globais como, por
exemplo, a Organização das Nações Unidas (ONU) e suas agências, priorizando o
protecionismo econômico e o nacionalismo.
E para tal, a ultradireita não
mede esforços em focar, em determinados países, na engenharia institucional. O que
significa alterar a democracia por dentro desses, controlando órgãos institucionais,
tais como o Senado e o Judiciário, para realizar mudanças estruturais lentas e
permanentes, as quais satisfaçam os seus interesses e objetivos.
Além disso, ela reforça a manutenção
de uma agenda de restrições radicais de imigração, com reiterada manifestação
de comportamentos xenofóbicos, de defesa de valores ultraconservadores contra
pautas progressistas, de fortalecimento de uma rede diplomática
ultraconservadora internacional.
Mas, há um componente importantíssimo
nesse processo que diz respeito ao uso intensivo de tecnologias digitais e
desinformação para deslegitimar processos eleitorais e criar instabilidade
política, apresentando-se como uma alternativa autoritária à política
tradicional.
Por isso, não causa estranheza
observar um retrocesso deliberado em políticas climáticas globais e um foco
urgente na segurança pública como forma de captar o apoio popular antes de
ciclos eleitorais decisivos. Algo que anuncia uma grande expectativa em relação
às eleições de 2026, em diversos países, consideradas como testes críticos para
a resiliência das democracias frente a esse avanço.
Daí a necessidade reflexiva sobre
o movimento de concretização da beligerância estadunidense no início de 2026, no
qual o poder militar e econômico é visto como a principal garantia da
estabilidade, a fim de demonstrar que a força pode impedir que outros ataquem. Esse
deslocamento de recursos militares, incluindo mais navios e ativos
tecnológicos, não tem outra função a não ser conter a expansão global da China.
Não restam dúvidas de que o temor
da ultradireita, capitaneada pelos EUA, em relação à expansão chinesa está
fundamentado em uma combinação de protecionismo econômico, defesa da soberania
nacional e uma forte oposição ideológica ao modelo de governança de Pequim. Líderes
e influenciadores desse espectro político frequentemente classificam a China
como uma grande ameaça ideológica, com riscos à segurança cibernética e
espionagem.
Em suma, diante da previsão de
que a China possa superar a economia dos EUA até 2030, a ultradireita utiliza
esse cenário de beligerância multifacetada para promover políticas de tarifas e
barreiras comerciais com o intuito de, eventualmente, vencer uma guerra
comercial e reduzir os vazios geopolíticos que a China estaria pronta para
preencher.
Assim, olhemos para os janeiros
com atenção. Olhemos para os janeiros dentro do seu simbolismo de transitoriedade,
de renovação, de rito de passagem. A fim de que a capacidade humana de reflexão
crítica sobre essa experiência possa oferecer uma estrutura temporal capaz de
permitir o exercício da superação e da criação de novos valores.
Entretanto, vale ressaltar que todo recomeçar implica em riscos que residem na tensão entre a liberdade humana e a imprevisibilidade do mundo. Como toda ação ocorre em um meio social interconectado, nunca podemos prever ou controlar totalmente as consequências de um novo começo. Recomeçar é, portanto, lançar-se ao incerto. Desse modo, o sucesso ou fracasso do novo caminho depende das escolhas pertinentes ao exercício cidadão, sem garantias externas.
