Crônica do fim de semana!
Ignorância
e Conhecimento. Sobre hábitos e comportamentos sociais.
Por
Alessandra Leles Rocha
Cada vez mais as
discussões sobre hábitos e comportamentos sociais me causam tristeza e, de
certo modo, uma incompreensão diante da falta de sentido com que se manifestam.
Lendo uma matéria no site da BBC NEWS Brasil, sobre “ignorância estratégica” 1, não pude deixar de pensar a respeito e
me lembrei de imediato do filme “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener), de
2005 2.
Só para esclarecer
aos que ainda não ouviram sobre “ignorância estratégica”, ela significa
negligenciar ou desqualificar informações para benefício próprio, em uma escala
que vai desde o cidadão comum, a governos e empresas. Isso significa que
decisões tomadas por grupos minoritários permitem colocar em risco milhões de
vidas, por meio de uma estratégia, cujas entrelinhas está a ganância como
limite entre o Bem e o Mal. Daí, eu ter associado esses dois veículos de
informação, a reportagem e o filme.
Apesar de existir
desde que mundo é mundo, a ganância, por incrível que pareça, ainda consegue
surpreender. E consegue, porque de algum modo ela faz a imortalidade parecer
real. A ganância é a conquista sem limites, especialmente, éticos e morais. Mas,
qual a razão de se querer tanto, em termos de riqueza e poder, se algum dia não
estaremos mais aqui? A questão é que o ganancioso jamais pensa assim; a morte
não faz parte dos seus cálculos.
Isso significa em
termos práticos que estamos cada vez mais à margem de um verdadeiro
protagonismo social. Nossas decisões não são, na verdade, tão nossas assim. Podemos
dizer que nossa autonomia não ultrapassa a página dois. Na dificuldade genuína de
se manter alerta e consciente em tempo integral, há sempre um momento em que
não se consegue abstrair tudo, todas as ideias presentes em todos os discursos.
É nesse instante que nos tornamos manipuláveis.
Um exemplo clássico
disso são as estratégias de marketing. Nem tudo o que compramos faz parte
essencial da nossa necessidade naquele dado momento. Mas, de repente...
compramos. Diariamente somos pesquisados nos mínimos detalhes sem nos
atentarmos para a dimensão desse processo. O mundo contemporâneo, talvez, nos
conheça com mais profundidade do que nós mesmos. Sendo assim, ele sabe que
consegue nos conduzir para esse ou aquele lugar, sem maiores resistências.
Sob tais controles,
os pequenos grupos podem, então, fazer o melhor uso dessa “ignorância estratégica”. De modo que eles obtêm inúmeros benefícios enquanto
o restante da sociedade desfruta dos prejuízos. Pode-se pensar que esse é
apenas mais um caminho de construção para os abismos sociais. As pessoas são
induzidas a erros, a decisões equivocadas, as quais elas não têm total ou
parcialmente condições de reconhecer. No fundo, todos são vítimas em potencial
dessa “esperteza” alheia; só depende de quem está à frente do jogo no momento.
A “ignorância estratégica”,
portanto, nos faz pensar que estamos frente a frente tanto com a culpa – pela negligência,
imprudência e imperícia – quanto com o dolo – pela intenção e objetivo. É,
situação complexa e perigosa! Mas, infelizmente, que se avoluma em episódios recorrentes
no mundo contemporâneo.
A cientista Marie
Curie dizia que “na vida, não existe nada
a se temer, apenas a ser compreendido”. Por isso não faz sentido se
alienar, se abster do mundo, delegar a terceiros a sua segurança e bem-estar. Quanto mais isolado dentro de uma bolha, mais
em risco. Não se esqueça, o maior benefício que a ignorância, seja ela de que
tipo for, pode nos oferecer é a possibilidade de sempre adquirir conhecimento,
de expandir nossos horizontes e fronteiras, de romper com as trevas dando cada
vez mais visibilidade a luz.
