Reflexão...


O tempo da vida. A vida do tempo.



Por Alessandra Leles Rocha



Se há uma música que me arrebata a alma é “Oração ao Tempo” 1, de Caetano Veloso.  Seja pela poesia perfeita das palavras ou pela melodia suave, a verdade é que ela me traz uma reflexão intensa sobre a existência humana.
Aliás, é curioso pensar como existem pessoas que conseguem dissociar a vida do tempo. Particularmente, entendo que ambos caminham juntos, complementares, inseparáveis, e é nisso que reside o mágico mistério do mundo. Vivemos a perseguir essa contagem abstrata da existência, essa rede matemática que fraciona os acontecimentos, as emoções, os sonhos... De modo que, para alguns o tempo é tão veloz e voraz, que consome a vida; enquanto para outros, ele passa tão devagar, porque a vida consegue digeri-lo lentamente.
Por isso, há um constante conflito entre nós e eles. Sim. Porque acreditamos controlar a vida e o tempo, ou quem sabe, o tempo da vida e a vida do tempo. Não é à toa que afirmamos com soberba frequente nossa capacidade de traçar os caminhos da vida por vontade própria, à revelia das conjunturas, dos vieses, das surpresas. Como se, simplesmente, ela nos pertencesse sem direito a discussão; cativa dos nossos quereres e achares.  Do mesmo modo agimos com o tempo.
Pena, que muito antes do imaginado, a verdade nos bate no rosto para nos despertar da fantasia. O ideal não é real. Vida e tempo não são como massas de modelar submetidas à força de nossas mãos. A vida é sua; mas, é ela quem faz de você um instrumento de ação e não o contrário. Ah! E o tempo... esse é, ainda mais, indomesticável do que a vida. Ele tira. Ele põe. Ele forma e transforma para atender a parceria que tem com a vida, não com você. Ah, o tempo da vida e a vida do tempo! Tantas vezes inflexível; outras, tão maleável!
Então, o que atrapalha na nossa relação é o péssimo hábito de não ler o mundo. Queremos viver a vida e o tempo sem parar por um segundo qualquer para conhecê-los em profundidade, para entender suas linhas e entrelinhas, para desvendar os seus mapas e seus atalhos. Sabemos tão pouco, ou quase nada, da vida e do tempo e nos arvoramos do direito de blasfemar contra eles.
Temos pressa; mas, não por falta de tempo ou de vida. Temos pressa porque não queremos olhar no espelho da própria alma. Temos pressa, porque no fundo somos estranhos a nós mesmos. E se não nos conhecemos na devida profundidade, nos perdemos pelo caminho do que está além de nós.
Talvez o filme O curioso caso de Benjamin Button, de 2009, ajude você a compreender isso melhor. Uma das citações mais emblemáticas da personagem Benjamin Button, nesse contexto, diz que “para as coisas importantes, nunca é tarde demais, ou no meu caso, muito cedo, para sermos quem queremos. Não há um limite de tempo, comece quando quiser. Você pode mudar ou não. Não há regras. Podemos fazer o melhor ou o pior. Espero que você faça o melhor. Espero que veja as coisas que a assustam. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com diferentes opiniões. Espero que viva uma vida da qual se orgulhe. Se você achar que não tem, espero que tenha a força para começar novamente”.
A vida e o tempo, portanto, não são absolutos. Basta que você abra os olhos e enxergue com a capacidade plena para compreender os seus relativismos. A vida e o tempo dependem das perspectivas de cada um; afinal, nas nossas singularidades somos todos instrumentos do tempo da vida e da vida do tempo. Por isso, não há certo ou errado, bom ou ruim, alegre ou triste... quando se fala de vida e de tempo; tudo depende de quem olha, de quem diz.