Leia. Reflita.


Para o mundo que eu quero descer!!!


Por Alessandra Leles Rocha


Desculpem-me, mas tem muita gente por aí se escondendo na Pós-Modernidade para extrapolar as medidas, os limites, os padrões, se arvorando de um “direito” de “realizar sem limites”, que não está escrito e nem determinado em lugar nenhum. De modo que, de repente, as boas normas de educação, de respeito, de bom senso parecem ter perdido lugar para uma apologia a deseducação, a grosseria, ao destempero, a mais vulgar verborragia.  
Para início de conversa, o fato de o tempo fluir e possibilitar a sociedade se transformar não significa que eventuais mudanças são outorgas para discursos, ações, comportamentos, visivelmente nocivos e, porque não dizer, antissociais. De acordo com nossa posição no quadro social temos mais ou menos responsabilidade na manutenção do equilíbrio das tensões que, inevitavelmente, são presentes nas relações humanas.
Daí, essa ideia de viver e pensar sob a ótica do próprio umbigo ser tão perigosa, pois representa o surgimento dos abismos ou linhas divisórias entre os seres humanos; na medida em que, esses passam a crer que alguns são mais importantes, ou menos importantes, do que outros. E que esse grau de importância, de significância, é uma prerrogativa para agir despreocupadamente, sem medir nem avaliar as eventuais consequências.
Não é à toa que a atmosfera de incômodo parece não dissipar nunca. Há sempre uma bomba-relógio soando o seu tic-tac-tic-tac-tic-tac entre nós; o que não é nenhum pouco salutar e producente. Inclusive, porque esse exercício de força resulta num contínuo esgarçamento da imagem, que ameaça a identidade representativa dentro da sociedade. Essa flexibilização do ser, então, trouxe à tona a equivocada compreensão sobre a franqueza e a grosseria.  
Ora, há uma diferença enorme entre esses termos. A construção dialógica franca, clara, objetiva, fundamentada é o caminho buscado para se alcançar um denominador comum, quando da existência de arestas ou divergências de opiniões. O mundo, por sorte, é plural e nem sempre compartilhamos os mesmos pontos de vista; mas, em razão da nossa capacidade intelectual e cognitiva, se pode encontrar mecanismos de entendimento para moderar e apaziguar as distensões.
Agora, a grosseria é a expressão contundente da carência argumentativa, da manifestação não civilizada, do posicionamento unilateral imperativo, da incapacidade de reconhecer a diversidade humana na edificação social. A grosseria é narcísica; ela nasce do desejo incontrolável de ser único, de deter a supremacia social. Então, quando contrariados os indivíduos grosseiros respondem por meio do deboche, do escárnio, da inverdade, da desqualificação, da ofensa etc. De tão absurdo, tal comportamento chega às raias da infantilidade.
Outro aspecto importante nessa discussão toda é o fato de que, embora as metamorfoses sociais não justifiquem a elaboração de um “direito” de “realizar sem limites”, por meio delas originaram-se instrumentos que conduzem a uma percepção em relação a isso; é o caso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs).
Não há como negar, por exemplo, o papel preponderante das redes sociais na promoção do enfrentamento social ideológico e comportamental; de modo a se construir uma base de intolerância as diferenças, bastante rígida. De lado a lado o que se vê são pessoas impondo as suas crenças, valores, ideias, comportamentos, de maneira inflexível; ao ponto drástico, de essas discussões transcenderem o virtual e alcançarem o real, ocasionando episódios explícitos de violência e barbárie.
Como as informações circulantes são em grande quantidade e disseminadas ininterruptamente, o tempo de elaboração e ressignificação disso por parte das pessoas é aquém do necessário. Então, de repente, as pessoas tendem a seguir por um “efeito manada” sobre determinado assunto, perdendo a sua capacidade crítica e reflexiva sobre a vida.
Além disso, impulsionados por uma pressa cotidiana alucinada, a sociedade vem encontrado dificuldades para verbalizar, escrita ou oralmente, suas ideias e opiniões, deixando lacunas e imprecisões, as quais podem ser estopins para mais conflitos. Fala-se muito; mas, não com qualidade, com propriedade, com elementos que favoreçam a compreensão dos demais. Aqui e ali se muda de assunto, de modo que um emaranhado de pensamentos vai se perdendo, comprometendo a comunicação.  
Especialmente em relação a temas de caráter provocativo ou polêmico, esse movimento pode ser ainda mais perigoso; visto que, os desdobramentos e repercussões fogem a percepção da maioria das pessoas, mas podem impactá-las negativamente. Quando se tratam das TICs, é preciso a consciência de que estamos cada vez mais inseridos no contexto globalizante e globalizado do mundo.
Isso significa que para as relações sociais de ordem econômica, política, cultural, ambiental, nossas fronteiras geográficas comumente conhecidas não são mais fatores limitantes. Nossa convivência e coexistência, o que abarca a comunicação, não está mais presa ao convencional, ao papel.
Veja, por exemplo, que o mundo real, no tocante as suas “delicadezas” e “grosserias”, é discutido em fração de minutos em salas virtuais e os registros para posteridade resguardados em nuvens. O que a memória, eventualmente falhar ou se esquecer, pode ser facilmente recuperada no toque das mãos sobre uma tela; diferentemente, de quando se acreditava que as notícias “desapareciam” com os jornais velhos jogados no lixo, no dia seguinte a publicação.
Assim, a continuar presenciando esse movimento “nonsense”, o jeito vai ser pedir “Para o mundo que eu quero descer!”.  A trivialização do equivocado, a banalização do absurdo, não é regra, não é protocolo de sociedade alguma; mas, uma questão de escolha. Não há nada de descolado, de vanguardista e, muito menos, de poderoso em agir dentro desse comportamento atual; ao contrário, tamanha apologia à bizarrice, além de repugnante, é um espetáculo profundamente constrangedor.