Reflexão...
O
QUE MAIS ESTÁ PERDENDO SIGNIFICADO ENTRE NÓS?
Por
Alessandra Leles Rocha
Dois jovens
atiradores invadem uma escola pública em Suzano, SP, matam oito pessoas, ferem outras
tantas e depois se suicidam. Essa é a notícia
que estampa a mídia nacional e internacional no dia de hoje. Mas, o que significa
isso?
Assassinatos em
massa dentro de locais de grande aglomeração, não são incomuns pelo mundo. Mas,
quando se trata de escolas a questão se torna emblemática; pois, a princípio,
esse é um local onde jamais se cogitaria algo nesse sentido.
A violência no
ambiente escolar, então, escancara a baixa significância e respeito que ele vem
despertando na população; sobretudo, entre crianças e jovens. Infelizmente, a
ideia do “templo do saber” se perdeu no tempo e nas velocíssimas transformações
da sociedade.
Ir à escola por
obrigação, porque mandam às leis do país, isso não faz mais nenhum sentido. Primeiro,
porque há muito o estudo deixou de representar efetivamente uma perspectiva de
ascensão, de ingresso no mercado de trabalho, de melhores oportunidades na
vida... Basta olhar ao redor, por exemplo, para se deparar com milhões de
brasileiros e brasileiras, altamente qualificados, disputando palmo a palmo uma
vaga nas filas do desemprego nacional, ou tentando uma aventura no cenário
empreendedor.
Segundo, porque enquanto
a web despeja milhões de informações atualizadas
por segundo, numa avalanche sem fim; o modelo de escola existente além da
incapacidade de instrumentalizar e letrar o aluno para extrair desse processo
tecnológico o conhecimento, insiste em ensinar de maneira descontextualizada e
distante da verdadeira realidade de seu aprendiz.
Assim, Educação e
aluno não conseguem dialogar mais, não se entendem mais; de modo que, os abismos
vão se erguendo em meio aos ruídos silenciosos do desinteresse, do desrespeito,
da evasão... A escola não representa mais o passaporte para um futuro pleno e
promissor, como se dizia antigamente.
Tomando por base apenas
essas duas considerações temos, então, a ponta do iceberg Pós-Moderno. Os desdobramentos da revolução científica e
tecnológica que abraçou a humanidade, a partir da segunda metade do século
XVIII, nos ensinou que poderíamos “realizar sem limites”, de acordo com a
própria vontade, dependente dos recursos de posse de cada um. Então, diante da
velocidade da vida, desse imediatismo dominante, há uma dificuldade do ser
humano em resistir à tamanha tentação, que ao mesmo tempo em que essa liberdade
aparenta a conquista de poder e triunfo, a insegurança por ela ocasionada gera frustração,
medo e ansiedade.
Estamos diante de uma
desilusão inquieta pairando sobre a sociedade, especialmente sobre a juventude.
A segurança de haver respostas as nossas indagações e necessidades mais simples
se perdeu. São, de fato, tempos de constantes incertezas e profundas decepções.
Inclusive, isso me faz lembrar uma citação do historiador Leandro Karnal que
diz, “nós não consertamos mais relações
humanas, nós trocamos. E ao trocar sapatos, computadores e pessoas que amamos
por outras pessoas, vamos substituindo a dor do desgaste pela vaidade da
novidade. Ao trocar alguém, creio, imediatamente eu me torno alguém mais
interessante e não percebo que aquele espelho continua sendo drama da minha
vaidade”.
Quando nada mais
resta para anestesiar, inebriar essa inquietude coletiva, nem mesmo as relações
humanas, o resultado é quase sempre um último gesto de violência contra si e/ou
contra os outros. Uma última gota de ousadia calculada, premeditada com todo requinte.
Talvez, um jeito estranho de estabelecer comunicação com um mundo que
desaprendeu a verbalizar, a fixar contato visual, a desnudar e compartilhar as
emoções e os sentimentos.
Portanto, precisamos
parar de enxergar esse tipo de massacre como fato isolado, ou um mero rompante
adolescente. Isso é apenas consequência do que permitimos a sociedade se transformar.
Nossas omissões, ou abstenções (conscientes ou não), diante do cotidiano têm consequências;
na verdade, simplesmente ninguém pode “realizar sem limites”, ninguém vai ter
tudo o que quer, ninguém vai ser sempre feliz, enfim...
Enquanto o mundo
acena os seus prodígios científico-tecnológicos, deveríamos estar mais atentos
ao esfacelamento dos nossos valores, princípios, símbolos, representações (nesse
caso a escola); afinal, rupturas e esgarçamentos são sempre um sinal de alerta
para nos perguntarmos o que mais está perdendo significado entre nós.